   PEDRO BANDEIRA



 Droga de americana!

Mais uma aventura dos Karas!




        Dedico este livro a
     Isabel Sampaio Penteado,
       a minha querida Bel.

Sumrio


1. Seqestro no Elite
2. A filha do presidente americano
3. O perigo sobrevoa o Elite
4. Nuazinhas em plo
5. Os Karas entram em ao novamente
6. O cdigo da morte
7. Socorro, Karas
8. Diga que voc est viva
9. Quanto tempo Magr ainda tem de vida?
10. O que eles querem  guerra!
11. De onde voc surgiu?
12. Droga de americana!
13. O fim de Magr
14. Eu quero ser um Kara!
15. Corujas no telhado
16.  meia-noite. Vamos comear
17. Matem a garota!
18. Amigos para sempre

                            1. Seqestro no Elite


        A noite friorenta daquele incio de junho caa quando as luzes se acenderam

iluminando a rea esportiva do Colgio Elite, completamente deserta, no fossem os

dois cadveres estendidos  frente da metade feminina dos vestirios.

        Estranhas gravatas vermelhas, pegajosas, escorriam do pescoo de cada um

deles, maculando-lhes o branco das camisas. Os dois sisudos e mal-encarados

agentes de segurana da filha do presidente dos Estados Unidos tinham sido

praticamente degolados...

        Se no estivessem mortos, e se o rudo do motor de um helicptero no se

sobrepusesse a todos os sons, de dentro do vestirio os dois teriam ouvido uma voz

de menina, que desafiava, furiosa, em ingls:

        -- I'm the president's daughter! What do you think you're doing? Eu sou a

filha do presidente! O que voc pensa que est fazendo?

        Estas foram as ltimas palavras de Magr no momento em que estava sendo

seqestrada em pleno vestirio do Colgio Elite...

        Na semana anterior, tinha sido acalorada a reunio entre J. Edgar Hooper, o

todo-poderoso diretor da CIA, a Agncia Central de Inteligncia dos Estados Unidos,

onde a palavra "inteligncia" na verdade queria dizer "espionagem", e dois policiais

brasileiros: Doutor Pacheco, o delegado da Polcia Federal, que andava sempre de
culos escuros, e o gordo detetive Andrade, que enxugava a careca com um leno,

apesar da perfeita refrigerao da sala de conferncias do luxuoso hotel brasileiro.

         -- Bem, senhores, os detalhes da segurana pessoal do presidente dos

Estados Unidos durante sua permanncia no Brasil j esto resolvidos. Vamos agora

discutir o esquema de proteo  filha dele no Colgio Elite, na tarde em que ela

estar participando da exibio de ginstica olmpica -- props o Doutor Pacheco.

         -- J. Edgar Hooper deu um soco na mesa de reunies:

         -- This is the problem! Esse  o ponto mais fraco, mister Pach... Pachino...

Patchico...

         -- Pacheco, mister Hooper. Pacheeeeco!

         -- Hum...? -- fez Andrade, olhando para a intrprete, que estava ali porque,

embora o Doutor Pacheco falasse a lngua do visitante, o detetive Andrade no

conhecia mais de meia dzia de palavras em ingls.

         -- No estou gostando nada da idia de miss Peggy MacDermott participar

dessa exibio de ginstica com sua amiguinha brasileira -- continuou Hooper. --

Com o ginsio do Colgio Elite lotado, vai ser difcil garantir a segurana dela!
         -- Pode ficar sossegado, seu Hooper -- garantiu Andrade, depois de ouvir a

traduo. -- O quarteiro inteiro estar cercado pelo exrcito brasileiro. E meus

policiais so perfeitamente capazes de proteger essa menina de qualquer ameaa,

at de correntes de ar!

         -- Just a moment, detective And... Androu... Android... -- Hooper

praticamente interrompeu a intrprete. -- Como  que algum consegue pronunciar

um nome como esse?

         -- Andraaaade, seu Hooper -- ajudou o detetive, contrariado.
        -- O que quer que seja! Nesse caso, s posso confiar nos policiais

americanos. Nos meus homens! O senhor j pensou que desastre seria se,

justamente no Colgio Elite, algum grupo de malucos resolvesse, por exemplo,

seqestrar a filha do presidente?

        -- Nem diga uma coisa dessas! -- exclamou Pacheco. -- No brinque com

uma coisa sria como um seqestro!

        -- No sou homem de brincadeiras, mister... Patchiec... ahn... mister

policeman. Estou dizendo que a proteo de miss Peggy MacDermott durante sua
permanncia no colgio da amiga ter de ficar somente sob a minha

responsabilidade.

        -- S sob a sua responsabilidade?! -- estranhou o detetive Andrade. -- O

que quer dizer com isso? E ns?

        -- Vocs ficam de fora. Meus agentes especiais revistaro os espectadores

na entrada e s eles faro a segurana interna. E vo esvaziar toda a rea esportiva

da escola logo que terminar essa exibio idiota. Enquanto a filha do presidente no

sair de l, no quero por perto nenhum aluno, nenhum funcionrio, nenhum professor!
        -- Ei, espere a! -- protestou Andrade. -- O senhor pensa que os alunos,

professores e funcionrios do Elite so um bando de terroristas? A senhorita Peggy

no correr nenhum perigo l. Ainda mais com Magr!

        -- Who? -- estranhou Hooper. -- Quem  Magr?

        -- Bem...  que... ela ... -- Andrade percebeu que sem querer tinha revelado

sua amizade com seus queridos meninos do Colgio Elite. Gaguejou e enxugou

novamente a careca com o leno. -- Esse  o apelido da amiga brasileira da senhorita

Peggy...  que ela  magrinha, sabem?
         -- Deixe esse caso conosco, mister Hooper -- pediu o Doutor Pacheco,

contrariado com a divagao de Andrade.

         -- Definitely not! -- cortou Hooper. -- Definitivamente no! Insisto que a

polcia e o exrcito brasileiros fiquem fora do colgio!

         No adiantou discutir mais: o Colgio Elite teria mesmo de ser ocupado pelos

agentes americanos e os policiais brasileiros ficariam de fora, ainda que o detetive

Andrade deixasse bem clara sua desaprovao:

         -- S quero saber se o senhor tem certeza de que seus orangotangos so
mesmo os melhores, seu Hooper...

         Automaticamente, a intrprete traduziu a frase malcriada e Hooper arregalou

os olhos ao ouvir seus agentes especiais chamados de "apes":

         -- What?! O senhor chamou os agentes da CIA de macacos?

         Pacheco interveio, salvando a situao:

         -- Oh, no, mister Hooper! O detetive Andrade quer saber  se os seus

policiais so mesmo azes... Acesl

         -- Azes?  claro que meus homens so azes. So os melhores!
         A intrprete sorriu, sem jeito, e baixou os olhos entendendo a pequena
mentira do delegado da Polcia Federal, que continuou, tranqilizador:

         -- Vai dar tudo certo, senhores. O Presidente Wilbur MacDermott no correr

nenhum risco no Brasil. Muito menos a filha dele no Colgio Elite. Ento fica acertado

que a CIA far a segurana da rea de esportes da escola enquanto ns cercaremos

os quarteires do colgio de tal modo que nem um gato possa entrar na rea sem

crach de identificao. Para seqestrar a filha do presidente americano, s mesmo

se houver terroristas com asas!
        -- Buttshit! Ora, que bobagem! -- cortou Hooper. -- Crach de identificao

para gatos! E terroristas voadores! Ora essa!

        E os trs continuaram a discutir outros detalhes da visita dos americanos ao

Brasil, mais tranqilos com a parte do Colgio Elite. Nada poderia dar errado. Tudo

seria um mar de rosas.



        A exibio de ginstica olmpica no ginsio de esportes do Colgio Elite tinha

sido um sucesso dos grandes. A platia tinha adorado, apesar da falta de modos dos

inmeros brutamontes engravatados que revistaram todo mundo na entrada e
permaneceram o resto do tempo de costas para a quadra, encarando a assistncia de

pais, parentes e alunos da escola como se cada um fosse um terrorista pronto para

atacar de surpresa.

        Ningum tinha reclamado desse excesso de policiamento nem do alto preo
dos ingressos, pois o dinheiro seria destinado  campanha contra o trabalho infantil e
todos estavam ansiosos para ver a filha do presidente dos Estados Unidos bem de
perto. De fato, a americana era boa atleta, assim como algumas das outras ginastas
brasileiras presentes, mas a platia tinha vibrado mesmo com a apresentao de
Magr, que parecia no ter peso ao evoluir nas barras assimtricas e na ginstica de
solo.
        -- Que maravilha! -- exclamara uma senhora. -- Essa  que  a americana?
        -- Essa magrinha? Nada!  uma aluna do colgio...
        No final daquele verdadeiro espetculo de graa e elegncia, os aplausos
ainda nem tinham comeado a diminuir de intensidade e os brutamontes de terno
escuro j comeavam a expulsar todo mundo das arquibancadas como se tangessem
um rebanho.
          Chumbinho tentava entrar na quadra para falar com Magr quando um deles,
do tamanho de um armrio, agarrou o menino pelo brao.
          Sentindo a indignao tingir-lhe o rosto, Chumbinho encarou o sujeito,
falando num ingls perfeito:
          -- What is going on? Take your hands off me! O que est havendo? Me
largue!
          -- Get out of there! Fora daqui! Todo mundo pra fora!
          -- Que negcio  esse? Fora daqui por qu?
          -- I don't have to explain anything! No tenho de explicar nada! -- respondeu
o homem. -- Just obey, kid! Apenas obedea, garoto!
          -- Obedecer?! Assim, sem mais nem menos?
          Ah, ah, isso  que Chumbinho jamais faria! Enfrentar fisicamente o
orangotango engravatado isso ele no podia, mas como iria aceitar mansamente que
algum o expulsasse de algum lugar dentro de sua prpria escola?
          Conhecendo cada palmo do Elite, Chumbinho fingiu que ia embora, mas deu
um jeito de driblar a vigilncia dos policiais estrangeiros. Entrou furtivamente no
quartinho das vassouras, que ficava ao lado da porta de entrada da metade masculina
do vestirio. Em seguida, num salto, alcanou o alapo que levava ao forro de
concreto, onde ficava o...
          O esconderijo secreto dos Karas!
          Por que tinha subido para l? Bem, talvez s para contrariar o orangotango
americano e sentir-se aliviado como sempre se sentia quando conseguia resistir a
alguma imposio absurda. Mas, no fundo, queria estar ali porque aquele era seu
lugar de refgio, porque ali Chumbinho gostava de isolar-se s vezes, mesmo quando
no havia nenhuma "emergncia mxima", nenhuma reunio secreta dos Karas
programada. Havia momentos em que ele queria ficar s, com seus pensamentos e
com as lembranas dos perigos excitantes que vivera com seus queridos amigos
Miguel, Magr, Crnio e Cal.
         Deitou-se no cho do esconderijo, rememorando o espetculo de ginstica:
         "Que gatas! E a Natlia, ento?".
         De olhos fechados, revia a imagem da graa que era a Natlia da oitava, toda
fresquinha, jogando para trs aquele manto perfumado de cabelos negros ao
preparar-se para alguma evoluo. Pena que Natlia fosse quase um palmo mais alta
do que ele...
         No esconderijo secreto estava quieto, agradvel... Dava um sono...
         Pensou nos Karas, seu grupo maluco de amigos...
         H quanto tempo!
         Chumbinho sentia como se os Karas tivessem sido esquecidos dentro do
sarcfago de alguma mmia. H quanto tempo o grupo dos Karas no se envolvia em
uma daquelas enrascadas que fariam tremer os adultos mais valentes! H um tempo
no se falava mais em lutas secretas e arriscadssimas contra viles fabulosos que o
garoto Chumbinho ansiava por voltar a combater.
         O que estariam os outros Karas fazendo depois de terem sido expulsos do
ginsio de esportes? Chumbinho apostava que os trs estariam pensando em Magr.
E ele mesmo sabia muito bem qual deles o corao de Magr tinha escolhido...
         E a prpria Magr? Ora, era certo que ela no estaria pensando nos Karas.
Agora mesmo estaria com sua amiga americana e com as outras atletas, tomando sua
ducha no vestirio feminino, exatamente debaixo da outra metade do forro de concreto,
que ficava separada do esconderijo secreto por uma grossa parede.
         Nenhum deles estaria, como Chumbinho, ansiando por novas aventuras. Mas
que graa tem a vida sem aventuras, sem riscos estupendos a enfrentar? Sem aes
arriscadas que...
         A luz do entardecer, filtrada pelas poucas telhas de vidro do telhado, mal
iluminava a silhueta adormecida de Chumbinho.
         O menino estava sonhando com Natlia, quando foi despertado pelo rudo
ensurdecedor das hlices de um helicptero que parecia pousar sobre o telhado do
vestirio.

              2. A FILHA DO PRESIDENTE AMERICANO

         Na noite anterior, para mostrar a vista da cidade a Sherman Blake, o
simptico guarda-costas de seu pai, Peggy MacDermott levara-o  varanda do
luxuoso hotel brasileiro, cujo ltimo andar havia sido reservado somente para o
presidente e sua filha.
         -- Come here, uncle Sherm. Venha c, tio Sherm. Veja, esta cidade at
parece Chicago!
         Sherman Blake era um homem atltico, que ostentava ainda a forma fsica do
fuzileiro naval que mais condecoraes tinha recebido por atos de bravura. Depois de
reformado, Sherman Blake acompanhava h tantos anos a carreira poltica de Wilbur
MacDermott, cuidando de sua segurana, que j fazia parte da famlia. Quando era
pequena, muitas vezes Peggy havia cavalgado em seus ombros fortes e, no Natal, o
primeiro presente que recebia era sempre daquele eficiente protetor de seu pai. Para
Peggy, Sherman Blake sempre fora o querido "tio Sherm".
         -- Uncle Sherm, aqui as pessoas falam portugus, no ? No vou entender
nem uma palavra!
         -- Well. Aprendi um pouco de espanhol lutando contra as guerrilhas
latino-americanas. De portugus, s conheo algumas frases...
         Peggy repousou a cabea em seu peito e o afvel anjo da guarda do
presidente pousou os lbios em seus cabelos e sussurrou, carinhosamente:
        -- My dear est Peggy, o tchi mu...
        -- What? O que voc disse, uncle Sherm?
        -- I said I love you, my little Peggy... In Portuguese!
        A menina sorriu, feliz:
        -- I love you too, uncle Sherm...
        A poucos metros da varanda, sentados nas confortveis poltronas do grande
salo, o presidente e J. Edgar Hooper discutiam o protocolo acertado para o dia
seguinte, que transcorreria l mesmo, no hotel.
        -- Pela manh, Mister President, o trabalho ficar com as comisses tcnicas
em economia e poltica exterior -- recapitulava Hooper. --  tarde, est marcada sua
reunio com o presidente do Brasil, o senhor Augusto Rodrigues Lobo.
        -- E... Temos tantas coisas a decidir...
        -- Depois, exatamente  meia-noite, hora brasileira, ser a hora do seu
discurso, senhor. A transmisso ser feita daqui mesmo, desta sala. J est tudo
acertado para formar a rede mundial de televiso.
        -- Esse horrio foi bem escolhido, Hooper -- comentou o presidente. --
Corresponde s sete da noite em Los Angeles e s dez em Nova York. O horrio certo
para pegar nossos compatriotas na frente de seus aparelhos de tev...
        O diretor da CIA pigarreou:
        -- Bem... agora o roteiro de sua filha.  tarde, como o senhor concordou,
lamento dizer que contra os meus conselhos, miss Peggy ser levada ao Colgio Elite,
para a exibio de ginstica com a amiga brasileira. E esse ponto me preocupa, Mister
President, me preocupa muito...
        MacDermott sorriu daquele cuidado exagerado:
          -- Come on, Hooper! No se preocupe tanto. O esquema de segurana que
voc organizou est perfeito. Nada vai acontecer comigo nem com a minha filha no
Brasil!
          -- I'm not sure. No sei, Mister President. Vamos ter de confiar muito nas
foras locais. Estive reunido com os encarregados brasileiros na semana passada.
Eles parecem muito solcitos e organizados mas... como ter certeza? A proteo
externa do colgio ficar a cargo do exrcito e da polcia do Brasil, fora do nosso
comando!
          -- No haver problemas, meu caro Hooper. O Presidente Rodrigues Lobo 
um grande estadista. O povo o adora. Ningum nos far mal.
          -- , mas h muita gente que odeia o presidente brasileiro, Mister President.
          -- Assim como a mim, Hooper, assim como a mim. Principalmente dentro do
meu prprio pas...
          -- Ainda acho que o senhor no devia ter feito essa viagem, Mister President.
Sua segurana ...
          -- Importante? Pois muito mais importante ser meu discurso de amanh 
noite. O mundo ficar surpreso com a proposta que vou apresentar, voc vai ver!
          -- Surpreso? No caso de sua segurana e de sua filha, espero que
estejamos livres de surpresas, Mister President...
          O presidente voltou-se para o lado da varanda, chamando carinhosamente a
filha:
          -- My little kangaroo! No est na hora de ir para a cama? Voc deve estar
exausta, depois da viagem para c...
          Pouco depois, Peggy aconchegava-se sob as cobertas, pensando em Magr,
a amiga que ela havia conquistado no campeonato mundial de ginstica olmpica,
disputado nos Estados Unidos. Isso tinha sido poucos meses antes de seu pai, o
senador Wilbur MacDermott, ter vencido as eleies presidenciais. Agora, os eleitores
americanos a haviam transformado na filha do presidente dos Estados Unidos da
Amrica.
         E, quando soube que o pai preparava uma visita oficial ao Brasil, pediu e teve
permisso para acompanh-lo, embora sua me no pudesse viajar desta vez,
ocupada com suas atividades filantrpicas. Mas acabou consentindo, pois a filha
ficaria s trs dias longe dela.
         E Peggy adormeceu, repetindo mentalmente a primeira frase em portugus
que havia aprendido:
         "o tchi mu... o tchi mu...".

         -- Hey, Magr, could you handle me that towel, please? Pode me passar a
toalha, Magr?
         No dia seguinte, depois que toda a platia do ginsio de esportes j tinha sido
levada para fora do Colgio Elite pelos homens de J. Edgar Hooper, a jovem
americana enxugava o rosto com a toalha que Magr lhe estendera e sorria:
         -- Como  que voc consegue saltar dessa maneira, Magr?
         -- Do mesmo jeito que voc. Voc est em tima forma, Peggy!
         As atletas ainda tinham se demorado na quadra, uma mostrando para a outra
suas habilidades. Depois, abraadas, rindo felizes pelo encontro, Magr e Peggy
haviam sado do ginsio para o vestirio, junto com trs das garotas que tinham
participado da exibio de ginstica.
        Dois agentes da CIA, de terno e cara feia, escoltaram o grupo at a porta do
vestirio. Naturalmente nenhum deles falava ou lia portugus, mas o desenho de um
rosto feminino numa plaquinha na porta mostrava que havia um limite para sua
vigilncia. As meninas entraram no vestirio e os dois "orangotangos" postaram-se na
entrada, dispostos a proteger a filha do presidente com suas prprias vidas.
        -- Oh, Magr! Voc  incrvel. Eu nunca vou ser capaz de fazer uma sada
das barras como voc fez hoje!
        --  claro que vai, Peggy. Voc tem uma agilidade sensacional!
        -- Voc acha? Meu pai diz que eu salto feito um canguru, at me chama de
"my little kangaroo", mas ele deveria ver voc saltando!

                   3. O PERIGO SOBREVOA O ELITE

        Passava das seis horas da tarde e a noite caa depressa. J no escuro, o
pblico que havia vibrado com a sesso de ginstica era empurrado para fora do
ginsio pelos homens de cara feia e terno preto.
        Eram centenas de pessoas que surgiam dos grandes portes da rea
esportiva da escola, aumentando a confuso que tinha tomado conta das ruas em
torno do Colgio Elite. Tudo estava cercado por policiais e soldados com cachorros,
que formavam uma muralha para manter a distncia inmeros curiosos, reprteres
insistentes, cinegrafistas nervosos, iluminadores de televiso tropeando em fios, e
grupos de piqueteiros que empunhavam faixas e bandeiras, berrando palavras de
ordem contra o presidente americano, contra o presidente brasileiro e contra qualquer
tipo de autoridade de que se lembrassem.
        Miguel tinha sido um dos primeiros a sair da rea esportiva, ainda ouvindo os
aplausos da platia, que gritava o nome de Magr sem parar.
        "Magr... Voc  incrvel, minha querida..."
        Novamente sentiu um aperto no corao, como acontecia toda vez que
pensava na menina. Suspirou e sacudiu a cabea, espantando a lembrana. No lugar
dela, estampou-se a figura elegante de Peggy MacDermott, a filha do presidente
americano. Uma garota diferente, perturbadora...
        E Miguel estava perturbado.
        Durante a apresentao, tinha ficado no alto da arquibancada, junto com um
grupo de amigos barulhentos de sua classe. Como sempre, os Karas evitavam
aparecer juntos em pblico. Assim, tanto ele quanto Crnio, Cal e Chumbinho tinham
assistido de diferentes pontos da platia  apresentao de Magr, de Peggy e das
outras garotas.
        Miguel foi buscar a bicicleta no ptio de estacionamento do colgio pensando
que, no meio da multido que ocupava cada metro quadrado da rua, seria difcil
encontrar seus amigos.
        "H quanto tempo a gente nem se rene... Mais de trs meses! Para mim, 
como se fossem cinco anos. D uma vontade de... de qu? Bom, confuses nesse
mundo at que no faltam. Qual a prxima que os Karas vo ter de enfrentar?".
        A muito custo, conseguiu atravessar aquele mar de gente e j estava a mais
de cem metros do Elite, pedalando para casa, quando ouviu o rudo das hlices do
helicptero, sobrepondo-se ao barulho da multido.

        No meio de um grupo de piqueteiros, Crnio ficava na ponta dos ps para
tentar localizar os amigos.
        "Onde estar Miguel? E Calu? Bom, o pequeno Chumbinho eu nunca vou
conseguir localizar no meio dessa gente... E Magr? Ser que ela vai continuar com a
amiga americana?".
        Magr... Ela era a sua... Sua o qu? Amiga? Irm de sangue e coragem do
grupo dos Karas? Ou... namorada?
        Sempre que Crnio tentava falar-lhe de amor, Magr cantarolava uma msica
que fizera grande sucesso no encerramento da Olimpada de Barcelona:
           -- Amigos para sempre, you will always be my friend...
           Ignorando a multido que o cercava, Crnio isolava-se com esses
pensamentos quando o rudo do motor de um helicptero despertou-o novamente
para a realidade.

           Cal assistira  sesso de ginstica junto de um grupo de atores do elenco de
teatro do Elite, derretendo-se a cada evoluo que Magr fazia na quadra.
           "Magr..."
           Mas, aos poucos, a figura da visitante americana comeava a chamar-lhe a
ateno.
           "Essa Peggy no  to boa atleta quanto Magr. Mas ela ... hum... uma
gatinha!"
           O ensaio da pea que o jovem ator protagonizava tinha sido adiado para o dia
seguinte por causa da visita da americana que agora fazia seu corao bater mais
acelerado.
           "Teatro... Puxa vida! Era bem outro o tipo de pea que eu gostaria de
representar agora!", o sangue circulava forte por suas artrias ao pensar nos amigos,
ao pensar nos Karas. "Viver de verdade  muito melhor do que representar. Quando 
que os Karas vo entrar em ao novamente?"
           Tinha sido com uma das atrizes, a mais bonitinha delas, que Cal sara do
ginsio, deparando com a multido que lotava a rua onde ficava a entrada da rea
esportiva do Elite.
           Tentava enxergar por cima da multido e localizar algum dos rostos que
esperava encontrar.
        A seu lado fascinada pela beleza do rapaz, a linda atrizinha sussurrava, com
uma voz quente que revelava o convite que se seguiria:
        -- Calu... Que tal a gente sair daqui? Hein? Voc no quer ficar comigo?
        -- Hum?  que... Estou procurando uns amigos...
        Com o corpo quase colado ao dele, a garota erguia o rosto e o encarava, com
um sorriso doce e quente. Suas mos pousavam delicadamente no peito do rapaz,
enquanto as pequenas narinas comprimiam-se, como se quisessem aspir-lo para
dentro dela.
        Calu percebeu que a menina punha-se na ponta dos ps, oferecendo-lhe os
lbios. Nesse momento, o corpo da menina subitamente estremeceu, sacudido pelo
rudo estrondoso das hlices de um helicptero.

        O gordo detetive Andrade tinha decidido tirar um momento de descanso,
depois da organizao do esquema de segurana que envolvia o Elite.
        -- Um gelato, signore?-- a dona da lanchonete, que prosperava a olhos
vistos devido  contribuio das mesa das dos estudantes do Colgio Elite, que ficava
bem ali em frente, recebia simpaticamente o policial careca, de terno amarrotado. --
Ns temos um sorvete especial. Fabricao prpria: pistacchio, crema e cioccolato.
Un gelato crocante, tipicamente italiano!
        --  claro! Pode trazer. E poro dupla, hein?
        Logo Andrade recebia a taa com o sorvete pedido e verificava, deliciado,
que havia trs diferentes tipos de cobertura. "Isso  que  sorvete!", pensava o
detetive, atirando-se com prazer  tarefa de esvaziar a taa transbordante, apesar do
friozinho de comeo de inverno brasileiro. "Se meus colegas l da delegacia fizessem
uma visitinha a esse colgio, acho que iriam querer transferncia para a segurana
escolar..."
         Pediu mais um pouco de calda de chocolate e voltou a concentrar-se na
tarefa de saborear o sorvete.
         "Pena que o danado do Hooper deixou a gente de fora! Eu adoro ver a Magr
fazendo aquelas loucuras. Principalmente nas barras. Ser que a tal americaninha 
melhor do que ela? Duvido..."
         J comeava a anoitecer e, de acordo com o programa planejado, em poucos
minutos a limusine com a filha do presidente americano deixaria o Elite e ele poderia
voltar para casa. Apesar da multido que cercava a escola, o dia transcorrera na mais
doce rotina. A misso de participar do esquema de segurana da menina afinal de
contas tinha sido leve.
         "Nada aconteceu e nada acontecer. Felizmente!"
         Andrade pensava satisfeito que aquela era uma das poucas vezes em que
visitava o Elite sem se meter em alguma aventura mirabolante, junto com os cinco
meninos que ele amava como se fossem os filhos que nunca teve.
         "Miguel, Magr, Calu, Crnio, Chumbinho! Que meninos! Bom, parece que
agora eles esto livres de confuses...", pensava ele, lembrando-se de como aqueles
garotos o haviam ajudado em tantas ocasies. "Chega! Essas loucuras j fazem parte
do passado. Felizmente..."
         O detetive Andrade j havia raspado o fundo da taa de sorvete quando ouviu
o plac-plac das hlices de um helicptero sobrevoando muito baixo o Colgio Elite.

                            4. NUAZINHAS EM PLO

          No vestirio, trs das garotas que haviam participado da exibio de ginstica
olmpica riam e brincavam com Magr, excitadas pela presena entre elas de uma
novidade como a filha do presidente americano.
          -- Que amiga, hein, Magr? -- brincava Natlia, acabando de se vestir e
comeando a maquiar-se na frente do espelho que havia sobre o mrmore das pias.
-- Ela  bem do seu jeitinho. Acho at que d para confundir vocs duas...
          Sobre o tampo da pia, Magr viu uma lata de talco. Muito grande.
          "Que exagero!", pensou.
          -- O que ela disse?
          -- Nada, Peggy. S uma brincadeira. Ela diz que ns somos parecidas.
          Despiram os mais colantes e dirigiram-se para o banho, rindo das
brincadeiras das colegas.
          "J estamos ficando altas demais para a ginstica olmpica...", pensava Magr,
avaliando seu prprio corpo e o da amiga americana. "Agora, s me resta mesmo o
vlei".
          Parecidas de verdade elas no eram, mas a cor e o comprimento dos cabelos,
que ambas prendiam atrs da cabea para facilitar os movimentos da ginstica, eram
muito semelhantes. Alm disso, tinham praticamente o mesmo peso e altura. Tudo j
"um pouco demais" para a ginstica olmpica...
        Por entre a fartura de gua quente que escorria por seu rosto, Magr via
Natlia, na frente do espelho. Estranhamente, a colega sacudia com lentido os
cachos negros de seus cabelos. Parecia gemer baixinho.
        Entre Magr e Natlia, Peggy largava o maio que acabara de despir e
cambaleava, como se tivesse bebido.
        -- What is going on? O que est acontecendo? Estou me sentindo tonta...
        Tonta?! Peggy estava tonta, Natlia sacudia a cabea e...
        Magr ouviu o barulho de um corpo caindo. Ao lado de Natlia, as outras
garotas desabavam, estendendo-se no cho, de comprido.
        -- O que  isso? -- gritou Magr, tirando a cabea da gua.
        Por suas narinas, entrava um cheiro estranho, cido...
        -- Gs!
        Prendeu a respirao e voltou para o chuveiro. Debaixo d'gua, talvez o
efeito do gs fosse menor.
        Os olhos de Peggy fixavam-se nos seus, e a menina estendia frouxamente os
braos, tentando andar em sua direo. Atrs dela, Natlia escorregava devagarinho,
apoiada nas pias, at deixar-se cair molemente sobre o piso.
        "Um gs narcotizante! Jogaram gs aqui! Por qu?"
        O corao de Magr disparava enquanto via a filha do presidente americano,
completamente nua, cair no cho, de braos.
        Seus pulmes pareciam explodir e, mesmo debaixo d'gua, o gs comeava
a fazer efeito sobre Magr.
        "Respirar! Preciso respirar!"
        Percebeu um movimento. Uma figura sada de algum pesadelo destacava-se
no meio do vapor da gua quente do chuveiro e da fumaa amarelada, quase
imperceptvel, que flua da grande lata de talco.
          Uma figura com... mscara contra gases!
          "O que est acontecendo?", tentava pensar, lutando para segurar a
respirao. "Esse homem... Barbaridade! Isso s pode ser um atentado contra a
Peggy!"
Sacudiu a cabea debaixo d'gua. Mesmo sob o impacto de um susto como
aquele, mesmo sob o efeito do gs, seu raciocnio era o raciocnio de um Kara. E a
presena de esprito de Magr era a da garota mais inteligente e corajosa que algum
j viu. S havia uma coisa a fazer:
          "Preciso salvar Peggy!"
          O homem olhava em torno, ansioso e apressado.
          " agora..."
          De repente, o seqestrador viu o corpo de uma adolescente, toda nua,
avanar um passo, saindo debaixo do jato do chuveiro e olhando diretamente para ele.
Os olhos dela fuzilavam de dio, ao gritar:
          -- I'm the President's daughter! What do you think you're doing?
          Ao falar, o gs entrou pelo nariz e pela boca da menina. Magr prendeu de
novo a respirao, mas o narctico inalado queimava-lhe os pulmes.
          O homem corria para ela, quase tropeando no corpo nu de Peggy,
desfalecida no cho. Um par de mos brutais agarrava Magr pelos braos. A tontura
j era grande e seu corpo molhado amoleceu como se no tivesse mais ossos. O
bandido a sustentou, sem delicadeza alguma.
          Vinda do alto, deu para entender uma frase:
        -- You have to open the door first, idiot! Voc tem de abrir a porta antes,
idiota! Est se esquecendo do plano?
        Sentindo-se desmaiar, a nica menina do grupo dos Karas ouviu, acima do
vestirio, o rudo ritmado de um motor de helicptero.

        "O que est fazendo um helicptero aqui?"
         Chumbinho estava de p, com o sistema nervoso pronto para a ao, como
um ratinho ao ouvir um miado. A surpresa do primeiro momento logo dava lugar 
iniciativa e  coragem de um perfeito membro do grupo dos Karas.
        E Chumbinho no esperou mais nada para comear a agir.
        J estava levantando a tampa do alapo, quando o rudo das hlices do
helicptero comeou a diminuir, logo desaparecendo na distncia.
        Num instante, saa do quartinho das vassouras e via a porta da metade
feminina do vestirio escancarada.  frente dela, dois corpos de terno e gravata
jaziam estendidos, praticamente degolados...
        "Que horror! Estes so dois dos seguranas da filha do presidente! Eu discuti
com este aqui ainda h pouco! Assassinados! O que aconteceu?"
        Pulando os cadveres, Chumbinho correu para dentro do vestirio feminino.
        Um cheiro cido, desagradvel, ainda pairava no ar, apesar do frio que
entrava pela porta aberta. Um cheiro que entontecia, mas que j no era capaz de tirar
os sentidos.
        "Gs! Isso foi um atentado! Contra a filha do presidente! S pode ser!"
        A seus ps, Natlia estava cada nos ladrilhos, com os cabelos negros
espalhando-se desalinhados, formando uma moldura de cachos anelados em torno da
expresso desfalecida do rosto.
          "Natlia!"
          Ao lado da colega e um pouco mais alm, Chumbinho percebeu mais dois
corpos no cho.
          "Um atentado! Isso foi um atentado contra Peggy MacDermott! Magr! Magr
estava com ela. Onde esto as duas?"
          Um chuveiro desperdiava gua e enchia o vestirio de vapor quente. Um
pouco  frente dele, outro corpo feminino, plido e nu, estava cado de bruos.
          "Magr!", gritou Chumbinho para si mesmo, correndo para ajoelhar-se junto
ao corpo desfalecido.
          Apressado, virou-o de frente e a viso do rosto da filha do presidente
americano confundiu-o por um instante. Mas foi s por um instante:
          "Peggy MacDermott?! A filha do presidente? Mas por que algum jogaria gs
no vestirio e mataria os seguranas, se no fosse por causa dela? Para fazer algum
mal a ela? Para... seqestr-la? E Magr? Cad Magr? Ento... Ai, que desgraa! J
sei o que aconteceu!"
          Na mente aguda de Chumbinho, a nica hiptese cabvel para ver ali, perto
dos seus joelhos, o corpo nu da filha do presidente americano, e para no ver nem
sombra de Magr, revelou-se claramente.
          "Magr! Seqestraram Magr no lugar da Peggy! Os bandidos se confundiram!
Mas... e quando eles descobrirem o engano? Barbaridade! Vo matar Magr, na
certa!"
          O restinho de gs que ainda pairava no interior do vestirio feminino
tirava-lhe um pouco das foras. Chumbinho tinha de agir depressa.
        "Tempo! No tenho tempo! Preciso tirar essa garota daqui antes que algum
aparea!"
        O corpo a seus ps comeava a mexer-se. Junto s pias, a cabeleira negra
de Natlia agitou-se um pouco. O efeito do gs no era duradouro.
        Chumbinho ergueu o torso de Peggy e abraou-se a ela. Com esforo, ficou
de p, levantando-a. Os braos da menina rodearam-no frouxamente mas as pernas
no se firmaram no cho. O rapazinho aspirou fundo, abaixou-se um pouco, apoiou a
cintura de Peggy na nuca, passou o brao esquerdo por entre suas coxas e segurou
os pulsos da garota com a mesma mo. Por fim, levantou-se, com o corpo desfalecido
atravessado em suas costas. Com esforo, saiu apressado, carregando-a em direo
ao quartinho das vassouras.
        Passou por Natlia, quase perdendo o equilbrio. Sobre seus ombros, ouviu
um suspiro. A americaninha comeava a despertar.
        Dentro do quartinho, baixou-a delicadamente, apoiando-a  parede. Os olhos
de Peggy ainda estavam cerrados.
        "Um aviso! Preciso avisar os Karas!"
        Voltou ao vestirio. Dentro de um cesto de lixo, havia uma lata de refrigerante
vazia. Pegou-a. Com fora, passou o dedo indicador na borda da abertura. O sangue
fluiu. Sem um gemido, com trs traos, desenhou o aviso no espelho.
        A seus ps, Natlia gemia, dolorosamente.
        Chumbinho nem desviou o olhar. Em um segundo, de volta ao quartinho das
vassouras, com a ponta do indicador na boca, para estancar o sangue. Ao longe,
ouvia vozes e gritos.
        "Esto vindo... Preciso agir depressa!"
        Abaixou-se e deu um tapa no rosto da filha do presidente americano.
        Os olhos da menina arregalaram-se, olhando surpresa para ele.
        Tapou-lhe a boca com a mo, vigorosamente, e sussurrou-lhe com ansiedade,
em ingls:
        -- Please, Peggy, don't say anything. No diga nada, Peggy, por favor. Tente
entender: seqestraram Magr em vez de voc!
        -- What?!
        -- Entende o que isso significa? No momento em que os bandidos
descobrirem que levaram a garota errada, Magr ser assassinada, sem piedade!
        -- They'll kill Magr? O que voc est dizendo?
        -- Voc tem de ficar escondida, compreende? Os bandidos precisam pensar
que a garota que eles seqestraram  voc!
        -- O que est querendo dizer? Who are you? Quem  voc?
        -- Eu sou Chumbinho. Sou um dos melhores amigos de Magr. Confie em
mim. Voc precisa desaparecer para que todos pensem que  voc quem est em
poder dos seqestradores.  a nica maneira de salvar a vida de Magr! De fora,
ouviam-se gritos de pnico, confuso e desespero:
        -- Murdered! Assassinados! Assassinaram os seguranas!
        -- Hurry up! Depressa! Onde est a filha do presidente? Procurem!
        No demoraria muito e algum haveria de abrir a porta do quartinho das
vassouras. Para o mundo, seria um alvio encontrar Peggy MacDermott ilesa, mas no
momento em que as emissoras de rdio e tev noticiassem que uma outra menina
havia sido seqestrada, Magr estaria morta. Era isso, infelizmente essa era a lgica.
Por que os bandidos haveriam de poupar a garota errada? Era a vida de sua melhor
amiga que estava em perigo!
        Somente a presena de esprito e a inteligncia de um verdadeiro Kara
explicariam a presteza com que Chumbinho chegara quela concluso e agira do
nico modo possvel para preservar a vida de Magr. O garoto arfava, ansioso. A
americaninha precisava compreender, precisava colaborar, precisava ajud-lo!
        Peggy pensou depressa, examinando a expresso assustada do garoto que
insistia com ela, contando-lhe o enredo mais maluco de sua vida. E viu que uma
expresso como aquela s podia refletir a verdade. De repente, lembrou-se do gs e
compreendeu: Magr se sacrificara para impedir que ela fosse seqestrada! O menino
tinha razo. Se os bandidos descobrissem o engano, sua amiga brasileira seria
assassinada!
        -- Okay, I understand. Compreendo. O que eu tenho de fazer?
        -- Preciso escond-la, Peggy. Faa o que eu fizer.
        Num salto, Chumbinho agarrou-se nas salincias da borda do alapo, jogou
a tampa para dentro e deu um impulso como de quem sobe em muro.
        Do cho, Peggy viu o garoto fazer um gesto para que ela o imitasse.
        Para uma ginasta como ela, no foi difcil. Silenciosamente, combatendo o
resto de tontura que o gs ainda lhe deixara, saltou para agarrar-se na borda e deu
outro arranco, como se girasse nas barras assimtricas.
        Nua em plo, Peggy MacDermott estava no sto do vestirio masculino, o
esconderijo secreto dos Karas, na companhia de um menino desconhecido.
        Abaixo, rudos e vozes aos gritos mostravam aos dois adolescentes que o
caos estava instalado no Colgio Elite.
        Mais um pouco e o caos tomaria conta do planeta Terra.

               5. Os Karas entram em ao novamente

        A tarde comeava a cair, quando os presidentes Wilbur MacDermott e
Augusto Rodrigues Lobo encerraram a entrevista coletiva  imprensa. Os reprteres
tinham sido insistentes, exaustivamente insistentes, porque a curiosidade sobre o
discurso do americano era enorme e o mundo ansiava por informaes.
        -- Ufa! Acho que agora conseguimos ficar livres dos jornalistas! -- exclamou
aliviado o presidente do Brasil, depois que seu colega americano tinha fechado a porta
do gabinete presidencial do luxuoso hotel.
        -- Em toda a minha vida poltica, Augusto, nunca consegui me acostumar
com essa atitude da imprensa, que pensa que pessoas como ns tm respostas para
tudo -- lembrou MacDermott. -- Ser que ningum nota que somos gente como as
outras? Que amamos como todo mundo? Que temos famlia, que queremos a
felicidade de nossos filhos como qualquer pessoa? Que temos os mesmos sonhos?
As mesmas esperanas?
        -- E as mesmas dvidas tambm, Wilbur -- acrescentou Rodrigues Lobo,
que tratava o colega americano como se fossem velhos amigos. -- Esse pessoal
exige demais de ns. Muito mais do que somos capazes de fazer!
        --  sempre a mesma coisa, tanto aqui como no meu pas, meu caro Augusto
-- comentou MacDermott, deixando-se arriar numa poltrona.
        -- O mundo est ficando muito parecido, Wilbur.
        -- Mas, pelo jeito, esse processo comeou pelas coisas ruins.
        -- Est na hora de nos assemelharmos no que cada uma de nossas culturas
tem de melhor, no de pior.
        -- Concordo plenamente, Augusto. Enquanto as relaes internacionais
forem ditadas pelo poder da ganncia, s as coisas ruins sero exportadas. E  isso
que eu quero mudar!
        -- Voc j comeou, meu caro Wilbur. E eu tambm j comecei a fazer a
parte que me cabe. E, daqui a algumas horas, exatamente  meia-noite, com seu
discurso sendo transmitido para todo o planeta, o processo de justia pelo qual ns
dois lutamos no ter mais retorno.
        -- Ou vencemos, ou o mundo continuar sem esperanas.
        Wilbur MacDermott ficou srio:
        -- Eu no nasci para aceitar um mundo sem esperanas!
        Nesse momento a porta era aberta sem qualquer cerimnia e o Doutor
Pacheco entrava no gabinete presidencial sem culos escuros, talvez para que os
dois presidentes vissem seus olhos arregalados:
        -- Senhor Presidente, sua filha foi seqestrada!
        Sentindo-se muito tonta, Magr no conseguia abrir os olhos. No sabia por
quanto tempo ficara sem sentidos, nem ao menos se tinha ou no desmaiado. Sua
cabea, pendida para frente, parecia pesar uma tonelada e, em seus ouvidos, o som
do motor do helicptero diminua, at desaparecer por completo.
         Levantavam seus braos. Mos fortes agarravam seus pulsos. Sentiu-se
suspensa, solta no ar por um instante. Com a mesma brutalidade, puxavam seu corpo
para cima, fazendo-o passar por um espao estreito. Alguma aresta arranhou-lhe a
ndega. Foi largada no cho, numa superfcie dura, que parecia forrada com plstico.
Puxaram suas mos para as costas e amarraram seus pulsos, enquanto mais algum
apertava uma larga faixa de fita colante sobre sua boca. Notou que as pessoas se
afastavam.
         O cheiro de gs a nauseava. Procurou respirar curta e apressadamente pelo
nariz, lutando contra o enjo. Se vomitasse com a boca amordaada, na certa
morreria sufocada. Aos poucos, a tonteira diminua. Entreabriu os olhos. Pensou que
estivesse sonhando. Tudo estava escuro, mas algo como um teatro de sombras
projetava-se  frente. Como se ali fosse um estdio de revelao fotogrfica, havia
uma iluminao avermelhada, tnue, que projetava as silhuetas de dois homens
contra um pano esticado que havia diante dela.
         "O que vai acontecer comigo agora?".

                                          ***

         "Que helicptero  esse aqui no Elite?", pensou Miguel. "Est escuro demais
para ver... E por que essa correria de policiais?"
         Uma multido se aglomerava ao longo da rua lateral onde ficavam os portes
da rea esportiva do colgio e para onde acorriam carros de polcia fazendo um
barulho infernal com suas sirenes. Miguel acorrentou a bicicleta em uma rvore e
simplesmente esperou, sem mudar de lugar. O lder dos Karas sabia que Chumbinho,
Calu e Crnio logo o encontrariam, pois haveriam de imaginar que o pior lugar para
encontrar algum  no meio de todo mundo.
        Como ele pensava, logo dois dos rapazes avistaram-no  espera numa
esquina, a cem metros do colgio. Dava para ler uma expresso determinada no rosto
do jovem comandante.
        "Somente Calu e Crnio? Onde andar Chumbinho?" Miguel fez um sinal e
os trs reuniram-se sob uma sibipiruna que, apesar do inverno, ainda mantinha sua
farta copa. Num primeiro momento, olharam-se sem falar. Os trs sabiam que alguma
coisa grave deveria ter acontecido no interior de sua escola, s no podiam saber o
qu.
        -- Onde est Chumbinho? -- perguntou Miguel, entre dentes.
        Calu sabia que estavam  beira de um momento de luta. O melhor ator do
Colgio Elite era um verdadeiro Kara, sempre pronto para o que desse e viesse.
Balanou a cabea:
        -- No sei. Ele deve estar procurando por ns. J, j ele aparece.
        Crnio estava srio e tenso. Jamais, durante todos os anos em que estudara
no Elite, sua escola estivera, como agora, sendo invadida pela polcia e pelo exrcito
ao mesmo tempo. Negou com firmeza:
        -- Nada disso, Karas. Tenho certeza de que ele est l, no meio da confuso!
        -- Como voc pode ter certeza? -- perguntou Miguel.
        -- Quando eu estava saindo da rea de esportes, vi o danado do moleque,
com aquela carinha dele de resistncia aos adultos mandes, discutindo com um
americano grandalho. Tenho certeza de que Chumbinho deu um jeito de continuar l
dentro, s pra contrariar!
         -- Contrariar a CIA?! -- estranhou Calu. -- Ora! Voc acha que ele ia
conseguir furar a vigilncia desses tiras americanos?
         -- Voc no conhece o Chumbinho, Calu? Proibio, para ele,  o mesmo
que convite!
         -- No adianta especular, Karas -- decidiu Miguel. -- precisamos saber o
que aconteceu, realmente. Vamos atrs de informaes.
         -- My daughter! Minha filha!
         Plido, Wilbur MacDermott parecia nem conseguir respirar ao ouvir a terrvel
notcia que o Doutor Pacheco acabava de trazer.
         A surpresa de Rodrigues Lobo no era menor:
         -- O que o senhor est dizendo, Doutor Pacheco? O que aconteceu?
         Enquanto o delegado da Polcia Federal contava o que seus homens haviam
relatado por telefone, de fora da sala entrava o barulho dos jornalistas, que
protestavam, exigindo explicaes sobre as graves novidades que tinham aparecido
subitamente. Com dificuldade, eram contidos por soldados e policiais que nada tinham
a informar.
         -- ... degolados  faca! -- num fio de voz, Pacheco terminava o relato. --
Sinto muito, Senhores Presidentes, mas a nica falha do esquema de segurana do
senhor Hooper, da CIA, foi no imaginar que um helicptero poderia ser utilizado e...
         -- Um helicptero? -- interrompeu Rodrigues Lobo.
         -- Sim, Senhores Presidentes. Todos ouviram o motor de um helicptero
sobrevoando os vestirios. A ao transcorreu num tempo to curto que, quando os
outros agentes da CIA chegaram ao local, a senhorita Peggy j tinha sido levada.
         Nesse instante, invadiam o salo dois generais devidamente engalanados e
em rgida posio militar. Um era o chefe do Gabinete Militar da Presidncia da
Repblica do Brasil e o outro ocupava o cargo equivalente no governo americano. O
primeiro a falar foi o brasileiro:
         -- Senhor Presidente, j colocamos no ar uma esquadrilha de caas
modernssimos, equipados com radar. Estamos fazendo uma operao pente-fino no
ar. Isso  suficiente para localizar at uma pomba em vo. J bloqueamos todas as
estradas e aeroportos. Tropas aerotransportadas esto vasculhando cada canto onde
algum possa pousar ou esconder um helicptero. No h modo de esses
seqestradores escaparem!
         Chegou a vez do general americano, que atropelava as palavras:
         -- Mister President, a maior mquina de guerra do planeta Terra j foi
mobilizada. Acionamos nossos satlites, que so capazes de enxergar at mesmo a
placa de automvel a milhares de milhas. Esto cobrindo mede do territrio brasileiro
e enviando para ns imagens digitalizadas por computadores. Estamos vasculhando
todas as distncias para onde os bandidos podem ter voado levando a menina. No
h canto nenhum do mundo onde algum possa esconder miss Peggy!
         -- Queremos ser informados do andamento das investigaes a cada minuto,
senhores generais! -- ordenou Rodrigues Lobo.
         --  claro, Mister President. -- continuou o general americano. -- A Sala de
Guerra do Pentgono j est em alerta total e tomaremos conhecimento de cada pista
encontrada, no exato momento em que algum a descobrir!
        Os dois bateram continncia e deixaram o salo.
        -- Mas o que querem esses bandidos? -- MacDermott abria os braos, com
uma expresso de desconsolo. -- Por que levaram minha filha?
        -- Estamos esperando alguma nota dos seqestradores pedindo resgate,
senhor... -- foi tudo o que o Doutor Pacheco conseguiu dizer.
        -- Onde est Blake?
        -- Seu guarda-costas foi justamente para o colgio, Senhor Presidente.
Pouco antes que essa desgraa acontecesse, ele foi procurar o senhor Hooper para
saber como andava o esquema de segurana de sua filha.
        -- O Hooper, ? Ele est no colgio, no ? E por ser que ainda no ligou
para me dar satisfaes?
        -- Miss Malloy! -- MacDermott dirigia-se  secretria que se postava como
uma sentinela ao lado dos telefones. -- Ligue-me com o celular do Hooper,
imediatamente!
        Em um minuto, a ligao era transferida para sua mesa:
        -- Como  que voc foi deixar isso acontecer, Hooper? Hein? Tem certeza de
que no foi deixada nenhuma nota pedindo resgate? No? Ora, ento voc no tem
nada mais a investigar a no colgio. Se esse foi um trabalho externo e se voc no
deixou que nenhuma pessoa permanecesse na rea esportiva depois da exibio de
ginstica, no h ningum a interrogar nem pistas a descobrir. Agora s nos resta
encontrar esse helicptero. Venha imediatamente para c!
        Bateu o telefone e permitiu que, por um momento, todos na sala
percebessem que, por trs da coragem do comandante de uma grande nao, havia
uma alma de pai:
         -- Peggy... Onde est voc?

                           6. O CDIGO DA MORTE

         Em volta do Elite era o caos. Parecia que metade do exrcito brasileiro tinha
sido deslocada para l, ocupando o quarteiro como um enxame de abelhas na caa
ao urso invasor de sua colmia. Soldados em uniforme de campanha e policiais 
paisana corriam de um lado para outro. Os vrios grupos que se acotovelavam 
frente do colgio por diferentes motivaes repentinamente tinham se posto em um
movimento de baratas tontas, como se fossem sobreviventes de um terremoto. Um
verdadeiro pandemnio. Vozes gritavam em duas lnguas, berravam na lngua
universal dos palavres, ces policiais latiam furiosamente e o quarteiro se
transformara em alguma coisa como um asilo de loucos, com os loucos em fuga. J
era difcil saber a diferena entre curiosos e manifestantes ou entre policiais  paisana
e reprteres. Todos perguntavam tudo ao mesmo tempo e diferentes verses
tomavam corpo e espumavam-se como bolhas de sabo:
        -- Jogaram uma bomba no colgio!
        -- Que nada! A filha do presidente caiu do trapzio e quebrou a perna!
        -- No tem trapzio em ginstica olmpica, seu burro!
        -- Vai ver pegou fogo!
        -- Pegou fogo? Onde? No vejo fumaa...
        -- Sei l. Fogo sem fumaa. Coisa de terrorista!
        -- Um atentado! Algum terrorista deu um tiro na filha do presidente!
        -- Ouvi dizer. Mas parece que ela no morreu...
        -- Seqestro! Vai ver foi um seqestro!
        Empurrando os que o empurravam, um detetive gordo, careca e suarento
ouvia o desencontro de palpites e tentava concentrar-se para descobrir qualquer
informao mais slida, que viesse de dentro da escola. Repentinamente, deu-se
conta: "Magr! Ela estava l dentro! Ser que fizeram alguma coisa com Magr?"
        Uma parede de homens de terno preto bloqueava os portes da rea
esportiva impedindo a entrada de qualquer pessoa.
        Transtornado, Sherman Blake acabava de chegar. Mostrou suas credenciais
e, logo depois de passar pelos agentes, avistou J. Edgar Hooper dando ordens no
meio de outro grupo de subordinados.
        Por cima dos ombros dos halterofilistas engravatados, sobrepondo-se 
balbrdia que tomava conta de tudo, Blake berrou:
        -- Hooper, you incompetent! Seus malditos agentes no viram o helicptero?
At eu vi! Que tipo de gente voc trouxe para cuidar da Peggy? Voc no disse que
eles eram os melhores?
        Por trs de seus homens de preto, a voz de Hooper respondia, mas era difcil
compreender suas palavras at para quem soubesse ingls:
        -- ... get out of here... ponha-se para fora... deixe-me trabalhar... esto
mortos...
        -- Hein? Esto mortos?  claro que esto! Se no estivessem, acho que eu
mesmo haveria de mat-los! -- vociferava Blake, de volta. -- Como  que eles foram
deixar um helicptero pairar sobre o telhado do colgio e uma quadrilha de terroristas
levar Peggy, nas barbas deles?
        -- ... investigando... fora daqui... Blake, vai ...
        -- Voc e seus macacos incompetentes! Investigando o qu? A menina est
no ar! Voando para longe daqui. O que  que voc est fazendo para encontrar o
helicptero?
        -- ... atrapalhando... no tenho de dar satisfaes...
        -- Hooper, seu burocrata desgraado! -- a voz de Blake, j rouca, quase
chorava. -- Voc s est perdendo tempo! E tempo  o que ns no temos! A menina
j foi levada para longe. De que adianta ficar investigando a? Voc tem de ir atrs do
helicptero! Precisamos salvar Peggy!
        -- ... interrogar as outras garotas... estavam no vestirio... em estado de
choque... chorando... ponha-se daqui pra fora...
        -- Voc est se escondendo de que, Hooper?
        O diretor da CIA resolveu atravessar em sentido contrrio o crculo de ternos
pretos que os separava e enfrentar de perto a fria de Sherman Blake. Sua expresso
era de absoluto transtorno. Parecia  beira de uma exploso:
        -- Blake, you bastard! I should...
        Nesse momento, tentando abrir caminho no meio da parede humana que
obturava os portes, um careca berrava em portugus e j estava dominado pelas
mos dos brutamontes.
        -- Me larguem! Tirem as mos de cima de mim!
        Hooper reconheceu o detetive Andrade, com quem estivera reunido na
semana anterior e ordenou que o soltassem. Andrade veio bufando e tentando
articular-se em ingls, enquanto apontava para si mesmo com o polegar:
        -- Seu Hooper! Seu Hooper! Me detetive Andrade! Me detetive Andrade!
        O diretor da CIA no se esforava nem um pouco para esconder seu
desagrado com a presena do policial gordo e suado:
        -- O senhor  o detetive brasileiro, no ? O tal de Andr... Android... como
quer que seja o seu nome! O que quer aqui? O que estavam fazendo seus homens
enquanto uma desgraa como essa caa sobre nossas cabeas?
        Andrade no entendia nada e continuava:
        -- ...seu Hooper, o que aconteceu? Esto falando em seqestro! Ai, como 
que se fala "seqestro" em ingls? Seqestrichon! Seqestrichon!
        A confuso estava instalada. Andrade sacudia os braos, querendo reforar o
que falava e os outros dois berravam de volta, sem que ningum se entendesse.
        Uma policial-intrprete brasileira foi chamada e a pobre mulher teve de entrar
na dana, berrando estridentemente junto com Andrade, Hooper e Blake, para que
suas tradues pudessem ser ouvidas no meio do pandemnio.
        Sherman Blake continuava a desancar o diretor da CIA:
        -- A polcia brasileira estava fora, exatamente por uma deciso sua, Hooper!
E o que estavam fazendo os seus agentes quando o helicptero apareceu? Jogando
baralho?
        Hooper descarregava a raiva em cima de Andrade:
        -- A polcia do Brasil no serve para nada, mister Android! Leve seu pessoal
daqui e v cuidar do trnsito, que  melhor!
        Blake voltou-se tambm agressivamente para Andrade:
        -- O senhor  um policial do Brasil, ? E quais as providncias que vocs
tomaram? Sua maldita aeronutica no tem helicpteros, no tem avies para
perseguir o helicptero dos seqestradores? Vocs no tm sequer um radar para
rastrear o helicptero?
        Ao ouvir a traduo, Andrade arregalou-se:
        -- Helicptero?! A menina foi levada de helicptero? Eu ouvi o barulho de um
helicptero mas...
        -- S ouviu? -- cortou Blake, malcriado. -- O senhor no viu nada? O senhor
 cego? S h cegos na polcia do seu pas? Ser que vocs aprenderam com os
palermas do Hooper, ?
        Hooper aumentava o clima de desentendimento:
        -- Meus homens estavam o tempo todo de olho em todas as portas e...
        Sherman Blake perdia a cabea:
        -- E o cu, Hooper? Vocs tomaram conta das portas do cu? Como  que
nem vocs nem a polcia do Brasil foram capazes de ver o helicptero? Uma mquina
pintada de preto, com as luzes apagadas?
        Andrade continuava insistindo:
        -- Exijo que o senhor permita a minha entrada e de minha equipe, seu
Hooper. Precisamos ver a cena do crime!
          -- Sangue por todos os lados, isso  que  a cena do crime! -- Hooper
respondia como se narrasse um filme de terror. -- Uma faca de guerra! Meus homens
foram assassinados com uma faca de guerra! Que assassino foi esse que conseguiu
surpreender esses dois, usando apenas uma faca? As vtimas eram os meus
melhores agentes!
          Andrade no queria saber de lamentos. Queria ao:
          -- Esse  o meu pas! E o que acontece aqui  problema dos brasileiros!
Mande os seus gorilas liberarem a entrada para os meus policiais, seu Hooper. Eu
preciso investigar esse seqestro!
          -- Ningum vai pr os ps aqui dentro! O senhor quer criar um incidente
internacional, mister Android? Quer criar um problema diplomtico, confrontando-se
com meus homens? As investigaes vo ser exclusivamente da CIA!
          -- Ento, Hooper, deixe que eu investigue! -- exigiu o outro americano. --
Ou voc vai querer impedir a ao do guarda-costas do presidente dos Estados
Unidos?
          Andrade ainda no sabia direito quem era aquele quase gigante, com
msculos de protagonista de filmes de destruio em massa. Mas o homem metia-se
na discusso de tal maneira, que na certa ele devia ter alguma coisa com aquilo. Com
o auxlio da intrprete, conseguiu saber de quem se tratava:
          -- O nome deste  Sherman Blake e  guarda-costas do presidente dos
Estados Unidos. E diz que Peggy  a pessoa mais importante do mundo para ele...
          -- Esse desgraado da CIA deixou que terroristas seqestrassem a minha
menina por cima de suas cabeas! -- continuava Blake. -- E ele disse que os
escolheu pessoalmente, a dedo!
         O telefone celular de Hooper tocou em seu bolso e ele o sacou como um
cowboy saca uma arma. No estava mais para conversa e tentou encerrar, antes de
atender  chamada:
         -- Fora daqui! Todos vocs! Eu preciso agir!
         -- Agora  tarde, seu Hooper! -- devolveu Andrade. -- O senhor devia  ter
agido antes. Devia ter deixado mais homens junto de Peggy!
         -- Bullshit Besteira! Agora no adianta discutir sobre o que devamos ou no
devamos ter feito, mister Andr... mister-detective.

         Hooper finalmente atendeu a chamada no telefone celular. Ao ouvir a voz do

outro lado, empalideceu. Andrade s o ouvia falar em ingls, sem nada entender, a

no ser um ou outro "yes, Mister President" de vez em quando.

         O diretor da CIA desligou o telefone e, a um gesto seu, os halterofilistas

vestidos de preto agarraram o detetive Andrade e o puseram para fora.

         Um carro negro encostava em frente aos portes. Sem mais nada dizer,

Hooper embarcou nele e bateu a porta.

         Sem ser ouvido pelo guarda-costas que desaparecia atrs dos agentes para

dentro do Elite, nem por Hooper, no carro que partia em alta velocidade, Andrade

berrava na calada:

         -- E Magr? Aconteceu alguma coisa com ela? Responda, gringo, pelo amor

dos seus filhinhos! Qualquer gringo!

         Como no havia resposta possvel aos seus pedidos, o detetive afastou-se

esbaforido,  procura dos seus policiais, sem ver que mais algum estava sendo

arrastado de dentro do Elite e logo tambm jogado para fora.
        Abrindo caminho no meio da turba, os Karas conseguiam aproximar-se dos

grandes portes que levavam  rea de esportes do colgio, quando um homem

jovem de terno escuro era brutalmente empurrado para fora por outros homens

tambm vestidos de preto.

        -- Jernimo! -- chamava o homem, com o rosto afogueado numa expresso

de triunfo. -- Jernimo! Cad voc? V se aparece logo com essa cmera!

        Atendendo ao chamado, logo apareceu um sujeito miudinho com uma

cmera de tev na mo, seguido por um rapaz que carregava uma srie de fortes

lmpadas dispostas em uma cruz de madeira:

        -- Estou aqui, Solano. O que voc conseguiu descobrir?

        -- Me d logo o microfone, Jernimo. Descobri tudo! Tudinho! Fale com o

estdio. Me ponha no ar j, j!

        O tal Solano ajeitava um pouco o cabelo e, sob a forte iluminao, logo falava

para a cmera, espalhando para o mundo sua excitao:

        -- Aqui Solano Magal, falando diretamente do Colgio Elite, onde uma

tragdia sem precedentes acaba de acontecer. A senhorita Peggy MacDermott, a filha

do presidente dos Estados Unidos, acaba de ser seqestrada!

        Um "oh!" de espanto e incredulidade elevou-se da multido que cercava o

jovem reprter. O rapaz falava depressa, procurando exibir sua habilidade jornalstica

junto com a notcia, enquanto na certa j sonhava com uma , ou no mnimo com um

aumento de salrio:

        -- Vim acompanhar a visita de Peggy MacDermott a este colgio vestindo

roupa escura. Assim, aproveitando a confuso, dei um jeito de misturar-me aos

"homens de preto", como so conhecidos os agentes da CIA. Cheguei ao prdio dos
vestirios da rea esportiva e pude ver tudo, senhoras e senhores! Dois agentes

americanos estavam l, mortos, quase degolados!

        O reprter foi interrompido por um novo e prolongado "oh!", seguido de

comentrios revoltados.

        -- Fiquei circulando por l o quanto pude e, como entendo ingls

perfeitamente, ouvi o que diziam: em cima das pias do vestirio feminino, onde a filha

do presidente americano tomava banho junto com trs atletas brasileiras, os

terroristas deixaram um cilindro de gs narcotizante comprimido em uma falsa lata de

talco. Enquanto isso, um helicptero praticamente pousava sobre o telhado do

vestirio. Os bandidos devem ter descido por um cesto ou por uma escada de cordas

e, em um minuto, desapareciam na escurido da noite levando pelos ares a menina

desacordada!

        Um murmrio comentava nervosamente a ousadia do seqestro, enquanto o

reprter prosseguia:

        -- Ouvi uma conversa em que diziam que Sherman Blake, o guarda-costas

do presidente e de sua filha, estava chegando de carro ao colgio e conseguiu ver o

helicptero se afastando. Segundo ele, era um helicptero todo preto e com luzes

apagadas...

        -- Parece filme de espionagem! -- admirava-se uma voz no meio da

multido.

        -- Consegui at mesmo entrar no vestirio feminino, mas os agentes da CIA

acabaram me desmascarando e me expulsaram do colgio. S que ainda deu tempo

de perceber um estranho detalhe: no espelho do vestirio, os bandidos escreveram

um enorme "K", senhoras e senhores! E com sangue! Um "K"! Os trs rapazes
sobressaltaram-se ao mesmo tempo, reconhecendo a mais grave convocao de

emergncia mxima. No cdigo dos Karas, o "K" em sangue significava... Morte!

        -- As outras trs garotas que tambm estavam no vestirio j recuperaram os

sentidos. Parece que esto muito nervosas e, logo que for possvel, devem ser

interrogadas pelos agentes da CIA. Fora isso, nada de mais grave teria acontecido

com elas...

        "Magr!", pensou Calu. "Uma delas  a Magr!"

        -- A qualquer momento -- encerrava o eufrico jornalista --, Solano Magal, o

seu reprter, estar de volta com mais informaes...

        Os trs Karas afastaram-se. Dentro de seus peitos, coraes batiam

descompassadamente.
                              7. Socorro, Karas...


        Instalado na ampla sala de recepes dos aposentos presidenciais do hotel,

um monitor de cinqenta polegadas exibia incessantemente os progressos da caa

que estava sendo feita aos seqestradores. Filmagens a partir de satlites exibiam

trechos do territrio brasileiro com um detalhamento que possibilitava acompanhar at

o movimento de automveis nas estradas. Mas o que estava sendo procurado no era

um automvel, era um helicptero levando a filha do presidente dos Estados Unidos e

isso o fabuloso aparato de investigaes ainda no tinha conseguido localizar.

        -- Nada ainda? Nem sinal de minha filha? -- perguntava MacDermott para o

coronel encarregado dos contatos com a Sala de Guerra do Pentgono.

        -- Infelizmente nada ainda, Mister President -- respondia o militar. -- J

conseguimos rastrear toda a rea no raio mximo que poderia ter sido atingido por um

helicptero voando em linha reta e em alta velocidade desde hora do seqestro. At o

momento, porm, nenhum dos muitos helicpteros que foram interceptados era o

aparelho que queremos encontrar.

        -- Mas o helicptero poderia estar escondido dentro de um hangar, no ?

        -- O exrcito brasileiro j invadiu vrios hangares e grandes armazns dentro

deste raio, Mister President... E nada, at agora.
         O telefone celular do Doutor Pacheco zumbiu dentro do bolso de seu palet.

Depois de ouvir o que lhe diziam, o delegado da Polcia Federal correu para a porta,

abriu-a e recebeu um envelope.

         -- O que foi, mister Pacheco?

         -- Presidente... Presidentes... O gerente do hotel procurou um dos meus

homens dizendo que haviam chegado muitas cartas para o senhor, Presidente

MacDermott, e a ordem era que elas fossem entregues depois para o seu pessoal de

relaes pblicas. Mas esta aqui... veja o que est escrito no envelope...

         MacDermott recebeu o envelope e exclamou:

         -- Oh, my little Peggy!

         No envelope, em letra de computador, estava escrito:

         To the President of the United States, from the Kidnappers.

         Dentro dele, havia apenas uma folha de papel comum, um impresso de

computador que o presidente americano leu em silncio. Suspirou profundamente e,

de olhos baixos, estendeu o papel ao presidente do Brasil.

         -- Leia, por favor, Augusto...

         Respeitosamente, o coronel e o Doutor Pacheco no se atreveram a esticar

os pescoos para saber o contedo da mensagem, mas Rodrigues Lobo leu em voz

alta, traduzindo do ingls:

         Para o Presidente dos Estados Unidos. Dos seqestradores.

         No somos bandidos, somos americanos que amam nosso pas. Por isso,

no podemos permitir que nosso modo de viver seja destrudo. O senhor deve alterar

seu discurso, eliminando a proposta que pretende apresentar nesta noite. Por outro

lado, deve anunciar seu apoio  Emenda  Constituio americana que foi
apresentada pelo senador do Alabama. Sua filha est bem e, se nossas instrues

forem obedecidas  risca, o senhor a ter de volta logo aps seu discurso. Caso

contrrio, o senhor nunca mais ver sua filha com vida. Dentro de pouco tempo, o

senhor receber uma prova de que miss Peggy est bem. Mas lembre-se: a vida de

sua filha e a da Amrica dependem agora de sua deciso.

                Os Heris em Defesa da Amrica para os Americanos.



        -- Barbaridade! -- exclamou o Doutor Pacheco, no final da leitura.

        -- Heris?! -- Rodrigues Lobo praticamente gritava. -- Que heris so esses

que ameaam matar uma menina?

        -- A proposta do senador pelo Alabama! -- O Doutor Pacheco j havia lido

sobre ela e lembrava-se do escndalo que aquela idia louca havia provocado: se

aprovada, isolaria o pas, criando uma espcie de armadura jurdica e militar que

protegeria ainda mais ferozmente os pases ricos do desespero daqueles que nada

tinham. Para aquele senador, a pobreza dos outros era um problema deles e os

Estados Unidos deveriam defender cegamente sua prosperidade das ameaas

provocadas pela misria dos povos que tinham sido postos  margem do

desenvolvimento.

        "Nosso mundo pode no ser um paraso", pensava o Doutor Pacheco, "mas

esses canalhas querem transform-lo direto num inferno!"



        Nua, Magr sentia um frio intenso. Encolhia-se, tiritando. Seus cabelos ainda

estavam molhados, piorando ainda mais sua condio.

        Sob seu corpo, sentia o plstico grosso, esticado. Rolou de lado e, mesmo
com os braos amarrados s costas, conseguiu apalpar em volta. O plstico acabava

unido a paredes de pano. Um pano spero. Era aquele pano que funcionava como tela,

refletindo as silhuetas dos seus dois guardas, que permaneciam fora, recortados pela

luz avermelhada.

         "Isso  lona. Estou dentro de uma barraca... "

         Era uma barraca pequena, dessas de camping, em que uma pessoa mal

consegue ficar de p.

         A mordaa incomodava bastante, mas ela conseguia suportar. No haviam

amarrado seus tornozelos. Pelo jeito, no temiam que ela tentasse fugir correndo. Ou

sabiam que "fugir" seria completamente impossvel...

         "Provavelmente s me amarraram os pulsos para que eu no possa arrancar

a mordaa... Esses bandidos no querem que eu grite. Bom, isso pode significar que

essa barraca no est montada em nenhum lugar isolado... Onde estou?"

         A luz vermelha criava um ambiente fantasmagrico, como o vestbulo do

inferno. Um inferno gelado. Uma antecipao da morte que a esperava, logo que

descobrissem que ela no era Peggy MacDermott.

         Ouvia vozes masculinas que sussurravam em ingls. Era um som abafado,

como se estivessem em um lugar fechado, sem aberturas para o exterior.

         -- So far, so good... At agora, tudo bem. O chato  ficar aqui, sem fazer

nada. O captain disse que a gente tem de agentar s at a meia-noite...

         -- Exactly. Logo depois da meia-noite, o captain vai ligar pelo celular e nos

dar a ordem final. Meu palpite  que MacDermott no vai ceder. Da, a gente vai ter de

jogar esse material fora...

         O corao da menina pulou forte, junto com a compreenso da realidade que
devia enfrentar. Respirou fundo.

          "Preciso ficar calma. Por enquanto, acho que no vai acontecer nada. Mas

algum vai acabar abrindo o zper desta barraca. E se esse algum der uma boa

olhada, na hora vai descobrir que eu sou a garota errada. A esses malditos vo me

matar... "

          Os bandidos tinham falado em "jogar esse material fora", se o presidente

MacDermott no concordasse com alguma coisa que eles queriam. Mas, como o

Presidente concordaria, se era ela, e no a verdadeira Peggy, que estava ali? Isso

queria dizer que sua morte era apenas uma questo de tempo...

          "De um modo ou de outro, vo me matar. Ou eu morro como Magr, ou morro

como Peggy... "

          Sacudiu-se, espantando o medo.

          "Sou um Kara! Esses dois podem at conseguir me matar. S que no vai ser

fcil!"

          Magr lembrou-se do rudo de um helicptero, no momento do seqestro.

          "Vai ver esses bandidos entraram no vestirio desembarcando do helicptero.

Na certa me levaram nele, mas eu nem me lembro. Ser que fiquei tanto tempo assim

desacordada?"

          A mordaa sufocava. Seu corpo doa, machucado, arranhado. Sua cabea

latejava, ainda pelo efeito do gs. Apesar disso, estava alerta. Ela era um Kara.

          "Para onde me trouxeram?", insistia em pensar. "Onde est montada esta

barraca? Onde estou?"

          Procurava manter-se firme, mas, l no fundo, pensando nos seus queridos

Karas, seu coraozinho implorava:
          "Socorro, Miguel, Calu, Chumbinho! Socorro, Crnio... Ai, socorro, Karas... ".

          Os trs amigos estavam novamente reunidos sob a sibipiruna e Calu foi o

primeiro a falar:

          -- Seqestraram a filha do presidente dos Estados Unidos bem na nossa

escola, Miguel! Isso  um trabalho para os Karas!

          --  claro que isso  um trabalho para os Karas, Calu!

          Crnio revoltava-se, temendo que sua querida Magr pudesse estar ferida:

          E o cdigo da morte? O "K" escrito em sangue! O que ser que aconteceu

com Magr? Ser que os bandidos machucaram Magr, antes de fugir?  bem capaz:

ela nunca deixaria que um seqestro ocorresse bem na frente dela, sem fazer nada!

          -- O sangue pode ser de Chumbinho, Crnio -- lembrou Calu, to

transtornado quanto o amigo. -- Voc no disse que ele tambm est l dentro?

          -- Magr ou Chumbinho? -- perguntava Calu, tambm muito preocupado. --

Qual dos dois ter deixado o sinal dos Karas no espelho? De qual dos dois ser o

sangue?

          -- No podemos perder tempo! -- cortou Miguel. -- Precisamos agir. Mas

onde ela, ele ou os dois esto?  claro que no puderam sair do Elite. Isso quer dizer

que..

          -- Isso quer dizer que ainda esto l dentro, Miguel!

          -- Exato, Calu. E se esto l dentro, esperando pela ao dos Karas, onde

podem estar?

          S havia um lugar: o esconderijo secreto!

          -- Temos de ir para l. Agora!

          Os trs Karas sabiam que a nica alternativa que restava seria rastejar pelos
telhados interligados dos prdios do Colgio Elite at o telhado do vestirio. Em

seguida, teriam de retirar algumas telhas e entrar no forro, burlando o maior esquema

de segurana que jamais tinham visto.

          -- Mas os policiais americanos devem ter vasculhado cada palmo do Elite! --

lembrou Calu. -- Se os dois Karas se esconderam l, j devem ter cado nas mos

dos gringos!

          -- Talvez no -- raciocinou Crnio. -- Se a filha do presidente foi

seqestrada por um helicptero, de que adiantaria ficar revistando o colgio?

          -- Voc pode ter razo, Crnio -- concordava parcialmente Calu. -- Mas, se

a garota foi seqestrada de dentro de um dos vestirios, os policiais no revistariam

pelo menos a cena do crime e os arredores?

          -- No adianta discutir, Calu -- encerrou Crnio. -- Se essa  a nossa nica

chance em mil, temos de ir atrs dela. Eu vou para o esconderijo!

          -- S um de ns vai -- comandou Miguel. -- Os outros ficam na calada para

dar cobertura na volta. Vamos usar o Cdigo-Coruja. No quero que nenhum tira

gringo descubra um de ns descendo do muro.

          -- J disse que eu vou! -- repetiu Crnio.

          -- No! -- atalhou Calu. -- Quem vai sou eu!

          -- Vamos tirar na sorte -- decidiu Miguel. -- Somos mais de dois, ento vai

ser no "j-ken-p".

          Os trs estenderam as mos ao comando "p". Deu tesoura, pedra e papel.

Empate.

          -- Vamos de novo.

          Desta vez, Miguel e Calu estenderam as mos abertas: papel. Crnio tinha o
punho fechado: pedra, facilmente embrulhada pelos dois papis. Miguel e Calu

disputaram a prxima rodada. Miguel repetiu o papel e Calu veio com tesoura. Calu

iria, pois havia cortado o papel.

         Sem mais uma palavra, foram para uma das esquinas dos imensos

quarteires ocupados pelo Colgio Elite, um ponto totalmente oposto  rua onde

ficava a entrada da rea de esportes e onde se concentravam os acontecimentos. Ali

havia copas de rvores que, vindas dos jardins da escola, ultrapassavam o muro. Um

lugar ideal para escalar.

         Os trs andavam normalmente, para no despertar nenhuma suspeita. Ao

chegar sob os galhos, Miguel deu uma olhada em volta e fez um sinal com os dedos.

         Calu sabia que aquilo queria dizer "em frente". Como um macaco,

desapareceu no meio das folhagens.
                           8. Diga que voc est viva


         J. Edgar Hooper era a prpria imagem da vergonha quando entrou nos

aposentos presidenciais:

         -- Mister President, meu cargo est  sua disposio. Falhei miseravelmente

na guarda de sua filha e...

         -- Isso no  hora para histrias de honra ofendida, Hooper! -- ralhou

MacDermott, duramente. -- A sua honra est em continuar ao meu lado e me ajudar a

salvar a minha filha. Pois comece a trabalhar. Quero que seja investigado o estilo do

texto, quem so esse tais "Heris em Defesa da Amrica para os Americanos", preciso

saber quem est  frente dessa maldita organizao nos Estados Unidos, quero que

sejam checadas as fichas de cada um dos meus inimigos mais conhecidos, tudo, tudo!

         A bronca do presidente americano pareceu aliviar pouco a tenso do diretor

da CIA, que no era homem se entregar  primeira derrota:

         -- Obrigado por no me tirar da luta, Mister President!



         Logo que Peggy entrou no esconderijo secreto atrs dele, Chumbinho s

conseguia pensar na pressa que o empurrava para a ao. Mas, qual era essa ao?

No sabia direito como continuar o plano louco que imaginara, o de esconder uma

adolescente como aquela. Para onde a levaria? No dava para ficar por muito mais
tempo ali em cima, pois os agentes americanos poderiam resolver enfiar os narizes

em todos os cantos, invadindo at o forro do vestirio. Magr tinha sido levada pelos

ares e no faria sentido a polcia perder tempo dentro do colgio, mas Chumbinho no

podia arriscar.

         Com a chegada da noite, estava escuro ali dentro. Vinda das luzes externas

do colgio, apenas uma claridade tnue entrava pelas poucas telhas de vidro que

formavam um retngulo entre as telhas de barro macio. Sob esse retngulo, Peggy o

olhava com as sobrancelhas franzidas e uma expresso to decidida, to preparada

para as loucuras que na certa teria de enfrentar que, por um momento, Chumbinho

pensou que Magr estivesse ali, pronta para a ao e... e nua!

         Pela primeira vez, desde que entrara no vestirio feminino, Chumbinho

deu-se conta da condio em que estava a menina e arregalou-se frente  nudez da

filha do presidente dos Estados Unidos. E, como se os dois no estivessem

envolvidos no maior risco de suas vidas, o menino enrubesceu.

         "Ai, nem tive tempo de pegar roupas para ela, ou pelo menos uma toalha!

Essa garota vai morrer de frio!"

         Rapidamente, tirou o casaco e as calas do moletom que vestia. Somente de

cuecas e camiseta do Elite, ofereceu as duas peas para a menina, sem nada dizer.

         A filha do presidente americano enfiou as calas do abrigo sobre o corpo nu.

Vestiu o casaco com o logotipo do Elite, puxou o zper e voltou a encarar o incrvel

garoto, de quem aceitara a idia doida de desaparecer do mundo para tentar salvar a

vida de Magr.

         -- Ela est arriscando a vida no meu lugar, Chumbinho! -- sussurrou ela com

fora. -- No posso abandon-la! O que ns vamos fazer?
           -- Fugir daqui, Peggy. Talvez a polcia resolva vasculhar cada canto do

colgio  procura de pistas. No podemos perder tempo. Me siga. E confie em mim.

Eu tenho amigos que vo nos ajudar. Tudo vai dar certo!

           -- Okay. E no se preocupe comigo. Pode deixar que eu no sou de me

apavorar.

           Chumbinho afastou duas telhas do lado mais baixo do telhado e esgueirou-se

pelo espao deixado entre as ripas e os caibros. Peggy seguiu-o, decidida.

           Como dois gatos, o menor componente do grupo dos Karas e a filha do

presidente dos Estados Unidos rastejavam furtivamente pelos telhados do Colgio

Elite...



           A luz vermelha iluminava fantasmagoricamente o interior da barraquinha e as

vozes dos dois bandidos chegavam abafadas aos ouvidos de Magr:

           -- I didn't understand... uma coisa... no entendi.

           O comentrio do outro foi inaudvel.

           -- ... porta aberta do vestirio... por qu?

           -- ... I don't know... para o gs ir embora logo... talvez...

           -- Ahn...

           Magr arrastou-se por dentro da barraca e grudou o ouvido na lona.

           Seguia-se um breve silncio de falta de assunto. Um deles rompeu-o,

enfadado:

           -- Pena que a gente no tenha trazido nada para beber... Um gole de whisky

at que ia bem... Ou mesmo essa fantstica aguardente dos brasileiros, a tal

cachaa...
          -- Pra beber no tem. Mas tem pra comer.

          -- Os sanduches? D aqui.

          -- Trouxe seis.

          -- Trs pra cada um.

          -- Voc vai comer tudo isso? Eu achei que eram dois pra cada um.

          -- Dois pra cada um d quatro, stupid! No d seis.

          -- Mas, e a garota?

          -- Quem? Pra que  que ela precisa morrer de barriga cheia? Ela bem que

pode ficar mais umas horas sem comer. Depois que a minha faca tiver feito o trabalho,

ela no vai sentir mais fome...

          -- Ora... o pai dela pode obedecer ao que o captain quer... Da ela no

precisa morrer, no ?

          -- Se voc s quiser dois, pode deixar que eu como quatro.

          Dentro da barraca, a condenada, que no tinha direito  sua ltima refeio,

ouvia cada palavra de sua sentena de morte...

          "Eles vo me matar... Eles tm um celular. O tal captain vai acabar ligando

para dizer que a verdadeira Peggy est livre e, da, eles vo me matar! O que eu vou

fazer?"

          Durante alguns minutos, ouviu apenas rudos de mastigao.

          -- Olha aqui. Eu trouxe at sobremesa!

          -- Bom! O que ?

          -- Sorvete!

          O outro rugiu:

          -- Mas voc  um cretino, mesmo! No sabe que sorvete derrete?
        -- Mas eu trouxe no isopor!

        -- Mesmo assim. Quando voc comprou? Na hora do almoo? Voc acha

que sorvete agenta tanto tempo no isopor? Deixa ver... olha a: tudo derretido! Virou

um maldito mingau! Magr ouviu um tapa desferido pelo bandido contra a caixa de

isopor. Em seguida, um baque contra a lona da barraca. O bandido jogava fora a

sobremesa derretida.

        -- Puxa, que pena... Era um sorvete to bom! Logo, que isso acabar, vou l

fora comprar mais...

        Um rudo encerrou a conversa. Magr sentiu uma leve vibrao no piso sob o

plstico da barraca.

        --  o captain. Desa a escada.

        Logo em seguida, um murmrio diferente da voz dos dois. Algum mais

estava com os bandidos.

        -- Oh, captain! Everything's under control. Est tudo bem, captain... --

informou uma das vozes que a menina j conhecia.

        O murmrio respondeu ao bandido. Magr s pde perceber que era uma voz

masculina. Mas falava baixo demais, como se estivesse numa igreja durante um culto.

        "Ai, esse captain deve estar contando que eu no sou Peggy! Chegou a

minha hora..."

        -- Um bilhete para o pai? o computador?

        Mais uma ordem murmurada.

        "Como?! O bandido no sabe que Peggy est livre? O que aconteceu? Ser

que a polcia resolveu esconder Peggy s para me proteger? Oh, tomara que sim,

tomara que sim!"
        -- Certo. Ela no vai fazer nenhuma gracinha, captain, pode deixar.

        Recortada contra a iluminao vermelha, a silhueta do seqestrador

aproximava-se. O zper da entrada da barraca foi aberto uns dois palmos e uma mo

peluda introduziu-se, sem que Magr pudesse ver o corpo do homem.

        Sentiu-se agarrada e trazida para a frente da barraca, O bandido puxava

seus braos para fora e cortava as cordas que lhe amarravam os pulsos. Jogou-a de

volta para dentro e deixou alguma coisa no cho plastificado.

        O seqestrador soltou o pano da entrada, sem fechar o zper. O pano caiu,

frouxamente.

        Magr esfregou os pulsos machucados pelas cordas e viu um pequeno

computador porttil, que funcionava a bateria, ligado e com a tampa aberta. Na tela,

estava escrito, em ingls:




                       Miss Peggy, white a note to your father.
                       Escrvea uma nota para o seu pai. No
                       tente nada, apenas diga que est bem. E
                       no se esquea de escrever alguma
                       coisa que s seu pai conhea. Ele
                       precisa saber que voc est viva.
             9. Quanto tempo Magr ainda tem de vida?


        -- Porcaria de CIA! -- reclamava Andrade para seus subordinados, com o

humor em seus piores momentos. -- Esses sujeitos s entendem de espionagem. De

polcia somos ns que entendemos! Ai, se eu pudesse entrar no colgio, para pelo

menos falar com Magr! Ela  esperta como ningum. Na certa deve ter visto coisas

que esses macacos da CIA no notariam nem com um telescpio!

        Um policial veio com a informao de que os agentes estrangeiros tinham

chamado uma ambulncia para que as trs garotas que estavam no vestirio no

momento do seqestro fossem levadas a um hospital.

        -- Hospital?! -- berrou Andrade. -- As meninas esto machucadas? Fizeram

alguma coisa com Magr?

        -- No... parece que elas esto bem. Dizem que foi ordem dos diretores do

Elite, porque elas estavam muito nervosas. Um mdico da CIA aplicou-lhes um

calmante e recomendou repouso at amanh de manh.

        Andrade respirou, um pouco mais aliviado:

        -- Ai, que alvio! Os bandidos no fizeram nada com Magr! Ainda bem!



         frente de Peggy, Chumbinho avanava pelos telhados do Colgio Elite. A

noite era de lua nova, escura demais. Mas a iluminao vinda dos ptios da escola
obrigava-os a rastejar com cautela, para que nenhum dos gringos de terno preto

viesse a surpreender aqueles dois estranhos gatos em sua fuga noturna.

        Passando suavemente por cima de uma cumeeira, Chumbinho deu um

encontro em uma caixa. Era uma caixa preta, de uns trs palmos de altura.

        "Parece um alto-falante... Deve ter sido posto a para as festas juninas. Essa

nova comisso de festas do grmio inventa cada uma... Que lugar estranho para um

alto-falante! Por que no puseram isso mais perto do beiral do telhado?"

        Peggy seguia o menino com a suavidade de uma campe de ginstica

olmpica. E com a determinao de um verdadeiro Kara.



        "E agora? Tenho de escrever um bilhete para o presidente americano, como

se eu fosse a Peggy. Vou tentar tudo. Eu tenho de tentar tudo!"

        Magr comeou a teclar, procurando redigir num ingls bem coloquial:

        "I'm all right, daddy. Estou bem, papai. Eles no esto me ameaando.

Apenas faa tudo o que eles pedirem e eles vo me soltar".

        Nua, tremendo de frio, Magr sentia o corao disparado dentro do peito.

        "Preciso aproveitar esta mensagem!  minha nica chance. A nica chance

de me salvar. Tenho de dar um jeito de mandar uma mensagem disfarada para os

Karas... Eles precisam saber onde eu estou. Mas, onde eu estou? Ah, se Crnio

estivesse aqui, seria capaz de deduzir onde fica esse inferno iluminado de vermelho!"

        Lutando contra o pavor que teimava em domin-la, a coragem do incrvel

Kara que era aquela menina acabou vencendo. Cerrou os olhos, relaxou os braos, os

dedos, e expirou devagar, profundamente, quase soprando, at sentir todo o ar sair

dos pulmes. Aos poucos, seu corao foi batendo mais compassadamente e...
pronto! L estava Magr novamente, dona de si e de sua fantstica capacidade de

raciocnio:

         "Deixe ver... Depois de despertar do narctico, eu ainda estava tonta mas

ouvi o helicptero indo embora... lembro de estar sendo erguida... da puxada por

alguma passagem estreita... Eles me ergueram. Para onde? Onde estou? Tudo o que

sei  que essa barraca est montada no alto de algum lugar. Pode ser um

compartimento escondido em cima de um barraco, ou de uma casa... Mas, onde fica

essa casa?"

         Seu raciocnio perdia-se em crculos em torno de coisa nenhuma:

         "Devo ter perdido os sentidos mesmo... Nem sei dizer por quanto tempo me

carregaram at que eu estivesse sendo erguida e colocada aqui, dentro dessa

barraca... Ai, posso estar em qualquer lugar desse mundo! Como  que eu vou dar

alguma pista para os Karas? No sei onde estou, no sei onde estou!"

         Uma voz sussurrada mas agressiva veio de fora, exigente:

         -- Hurry up, you damn girl! Anda logo, raio de menina! A gente no tem a

noite toda!

         Magr lutava por uma idia salvadora. Desesperada, baixou os olhos para a

pequena abertura da barraca que o bandido deixara de fechar com o zper. Pela fresta,

pde ter uma estreita viso do cho  frente. Era de concreto e, junto da lona, l

estava a caixa de isopor, emborcada, com um lquido pastoso, amarelado, verde e

marrom, escorrendo. Na tampa, cada ao lado, dava para ler:

         Pistacchio, crema e cioccolato Gelato crocante Italiano.

         Na semi-obscuridade da barraca seus olhos arregalaram-se compreendendo:

         "Espera a! Eu estava sendo erguida, colocada numa barraca dentro de
algum cmodo... o som do helicptero afastando-se... Ei, na hora do seqestro um

deles estava mandando o outro no esquecer de abrir a porta do vestirio, como se

eles no tivessem entrado por ela e como se existisse a possibilidade de sair sem

abrir a porta! Ento... eu no sa! Ah, ah! Entendi tudo! Eu no perdi os sentidos

completamente! Tudo se passou num minuto! Ai, j sei onde estou!"

        O corao da nica menina do grupo dos Karas pulou dentro do peito:

        "O plano desses bandidos  genial! Esses canalhas fizeram tudo direitinho

para enganar a polcia! Mas eu descobri, eu descobri! Ah, eu descobri!"

        Sua mo tremia, teclando no computador.

        "No tenho tempo, no tenho tempo! Preciso inventar um cdigo, um cdigo

perfeito, um cdigo que s os Karas possam decifrar!"

        Escreveu:

        I fell like I was in Onapo.

        "Ai, usando o cdigo Tnis-polar fica estranho... Fica Onapo. Ridculo! Os

bandidos vo desconfiar na mesma. Tem de ser um cdigo infalvel... Ai, Crnio, ai,

Miguel, me ajudem!"

        Quando o som dos nomes dos seus queridos companheiros ressoou-lhe

dentro do crebro, a soluo do problema veio junto.

        " isso! Ai, ser que os Karas vo entender?"

        Aproveitou o computador para calcular a transposio de letras.

        "Tem dois T... Bom,  s mudar o segundo para y... "

        E teclou os nomes dos dois amigos, um em cada linha, com as letras uma

acima da outra:
         Deu 'Yorty'. Acho que vai dar... Tem de dar certo!" E completou a mensagem:

         "I'm all right, daddy. They aren't threatening me. Just do whatever they want

and they'll let me go. I'm really all right, don't worry about me. I fell like I was in New

Yorty, as I used to say when I was a little girl. Hurry up, daddy. Save me. Peggy. "

         "Eu estou bem, papai. Eles no esto me ameaando. Apenas faa tudo o

que eles pedirem e eles vo me soltar. Estou realmente muito bem, no se preocupe

comigo. Sinto-me como se estivesse em Nova Yorty, como eu falava quando era

pequena. Rpido, papai. Salve-me. Peggy".

         De fora, a voz continuava apressando Magr:

         -- Como ? Vai terminar ou eu vou ter de ajudar?

         A menina no podia provocar os bandidos. Se eles entrassem na barraca ou

a arrancassem de l, veriam que tinham seqestrado a garota errada. E sua morte

viria mais cedo.

         Impaciente, o homem aproximava-se novamente da barraca...

         "Bom, eu disfarcei a pista como se fosse alguma coisa que s Peggy e o pai

dela conhecessem. Mas agora eu preciso de algum detalhe pessoal de verdade...
Alguma coisa que faa o presidente acreditar mesmo que foi sua filha que escreveu

essa mensagem, mas o qu? No conheo Peggy to bem a ponto de... ah, j sei!"

         O homem levantava o pano da entrada com um arranco, quando Magr

digitou, logo aps a assinatura:

         ... your little kangaroo.

         Quando a garra peluda entrou pela abertura do zper, Magr esticava-lhe o

pequeno computador.

         -- All right, captain. It's done -- anunciou o bandido. Puxando de novo os

braos de Magr para fora, voltou a amarr-los com uma corda nova. -- Tudo certo,

capito. Est feito.

         O murmrio repetiu-se.

         O zper foi fechado e Magr respirou.

         "Pronto. Agora s dependo da sorte... Ai, tomara que os Karas descubram o

que eu tentei dizer! Me ajudem, Karas!''

         Ouviu de novo a voz do chefe, murmurando muito baixo. Um dos bandidos

respondia:

         -- Yes, captain? Sim, estamos com o celular.

         Murmrios.

         -- A gente espera, captain.  meia-noite em ponto? All right.

         "Meia-noite! Que horas sero agora? Quanto tempo eu ainda tenho de vida?"

         Depois de tanto tempo contidas, as lgrimas explodiram dos olhos de Magr.



                                           ***
          Chumbinho e Peggy tinham chegado a uma extenso do telhado que recebia

transversalmente uma luz vinda do ptio de recreio dos alunos menores. Grupos de

policiais de terno preto no paravam de passar por ali falando excitadamente em

ingls. Com um gesto, o garoto avisou Peggy que era preciso esperar.

          Rastejando com leveza, ultrapassaram uma cumeeira e abaixaram-se no

encontro de dois telhados de diferentes prdios do Elite. Ali, mais protegidos da luz

forte, era preciso aguardar um momento em que no houvesse ningum no ptio

abaixo deles para continuar a fuga.

          "Coitada dessa garota!", pensava Chumbinho. "A coisa agora tornou-se

crtica. Ela deve estar apavorada. Tenho de dar um jeito de acalm-la... "

          Segurou a mo de Peggy e olhou em seus olhos, procurando fazer a

expresso mais calma e tranqilizadora de que era capaz.

          Mas o que a menina transmitia-lhe de volta no era pavor, era valentia.

Erguidos para Chumbinho, seus olhos brilhavam sob a fraca iluminao, como se

fossem duas luzinhas iluminando um porto seguro para nufragos.

          Chumbinho sentou-se ao lado de Peggy, grudado nela, e abraou-a. A garota

encostou o rosto em seu peito, fazendo com que a boca e o nariz do menino

mergulhassem em seus cabelos. Chumbinho batia-lhe com a mo ritmadamente nas

costas, como se nina um beb, procurando transmitir-lhe uma calma de que ela no

parecia precisar. O dedo cortado latejava um pouco, mas o rapazinho nem parecia

sentir.

          A noite estava gelada. S com a camiseta do Elite e de cuecas, abraar o

corpo da garota era uma troca bem-vinda de calor, mas foi um outro tipo de fogo que

subiu pelas artrias de Chumbinho, incendiando-lhe as orelhas.
        O risco era enorme, o frio intenso, a situao maluca. Se algum do esquema

de segurana da garota o encontrasse tentando escond-la, atiraria nele antes de

fazer qualquer pergunta. Se seu plano tivesse alguma falha, sua querida Magr seria

assassinada. Se os bandidos descobrissem Peggy ali, encolhida no telhado, o mundo

estaria perdido.

        Mas, no meio dessa loucura, Chumbinho no pensava nas ameaas do

futuro. Depois de ter contemplado a beleza nua daquele corpinho, depois de t-lo

carregado nos ombros, depois de todos os lances que os tinham trazido at aquela

situao e, agora, de roupas de baixo, abraado ao corpo da filha do presidente

americano, sentindo o perfume de seus cabelos, a beleza morena de Natlia

esvanecia-se do corao do garoto como um torro de acar se dissolve na gua...
                10. O QUE ELES QUEREM  GUERRA!


        A tenso que pesava no ar dos aposentos presidenciais do hotel transformara

J. Edgar Hooper em algum semelhante ao detetive Andrade: seu terno preto estava

amarrotado e a gravata torta. quela altura, os relatrios que chegavam s suas mos

abatiam-lhe o nimo.

        -- Mister President... Por favor, preciso falar a ss com o senhor.

        -- A ss? -- surpreendeu-se MacDermott que, com o presidente do Brasil ao

lado, examinava a imensa tela do monitor, onde eram exibidas as trilhas do

rastreamento feito pelos satlites. -- No h nada que voc tenha a me dizer que meu

amigo Augusto no possa ouvir. Vamos, o que h?

        Os olhos de Hooper agitaram-se de um lado para outro como se ele estivesse

procurando as palavras certas. De qualquer modo, ele sabia que no havia palavras

certas para que ele pudesse dizer o que tinha de ser dito:

        -- J so mais de oito horas, senhor. At agora, No temos nem um fio de

esperana de encontrar miss Peggy. Quanto mais o tempo passa, mais distante fica

essa esperana. Minha concluso  que o helicptero pode ter conseguido furar o

bloqueio dos radares e dos satlites e agora est totalmente fora do nosso alcance.

        -- Continue, Hooper. Onde voc quer chegar?

        O diretor da CIA suspirou fundo:
         -- No h mais nenhuma pista a seguir, senhor. Se tivssemos mais tempo,

estou certo de que, mais cedo ou mais tarde, acabaramos encontrando sua filha. Mas

essa tarefa  impossvel de ser cumprida at a meia-noite de hoje...

         -- Muito bem, Hooper, v direto ao ponto. Por que essa conversa?

         O homem pigarreou:

         -- Sinto muito, mas devo aconselh-lo a fazer o que os seqestradores esto

exigindo...

         Wilbur MacDermott encarou-o, furioso:

         -- O que voc est me dizendo, Hooper?

         -- Mister President, desculpe-me, mas este no  o momento para decises

romnticas. Trata-se da vida de sua filha e...

         MacDermott cortou, rspido:

         -- Hooper, deixe que eu me preocupe em saber se minhas decises so

romnticas ou no!

         -- Mas, senhor...

         A    reao   de    MacDermott    era   violenta.   Levantou-se   e   apontou

ameaadoramente o indicador para a cara do outro: "Quem voc est pensando que 

o seu presidente, Hooper? No h nada que me faa ceder a esses bandidos. Nada!

         -- Nem mesmo a vida de miss Peggy?

         -- Nem mesmo a vida de minha filha!

         -- Mas, Mister President, o senhor poderia pelo menos adiar o seu discurso,

at que essa crise esteja resolvida!

         -- E voc por acaso conhece o contedo do discurso que eu vou fazer?

         -- No, senhor, mas eu calculo que deve ser sobre sua poltica de
desarmamento...

            -- Contra a qual voc sempre foi, no , Hooper?

            O diretor da CIA empertigou-se, ofendido:

            -- Mister President, por favor, no duvide de minha fidelidade. Minhas idias

pessoais no tm nenhuma interferncia na minha lealdade para com o meu

presidente. Eu...

            -- Por acaso voc  simptico a esses tais "Heris em Defesa da Amrica

para os Americanos"? -- cortou MacDermott, forando a pronncia da palavra

"heris".

            Hooper ficou plido. Seus olhos arregalavam-se para o presidente como se o

poltico tivesse xingado sua me:

            -- Eu... Como pode dizer uma coisa dessas, Mister President?

            O presidente encerrou, duramente:

            -- Est bem. J ouvi o que voc tinha a dizer. Agora deixe-me tomar minhas

prprias decises.

            -- Mas, Mister President...

            -- J chega, Hooper!

            O diretor da CIA recuou para a porta, andando de costas, sem desviar os

olhos de seu superior. Abriu a porta do salo e quase se chocou com o Doutor

Pacheco, que entrava com uma pilha de papis nas mos.

            -- Saia da frente, mister Petchico!

            MacDermott evitou olhar para o presidente do Brasil envergonhado pela

covarde sugesto de Hooper. Voltou-se para a secretria:

            -- Miss Malloy, por favor, telefone para o celular de Sherman Blake. No h
mais nada que ele possa fazer no colgio. Diga-lhe que eu quero que ele volte para

c.



        Sherman Blake fechou seu celular e guardou-o no bolso, depois de receber o

telefonema da secretria do presidente. Saiu apressado e logo tinha embarcado num

dos carros da embaixada.

        Ansioso, tentava empurrar com berros o motorista no caminho para o hotel:

        -- Hurry up, man! Depressa!

        Em menos de quinze minutos, o automvel chegava ao luxuoso hotel, cuja

rua estava tomada pelas equipes das redes de televiso e por centenas de curiosos.

Desta vez era bem maior o nmero de manifestantes que portavam faixas e bandeiras

e gritavam contra ambos os presidentes. Tudo era uma confuso de porta de estdio

em dia de final. E Sherman Blake temia que o final estivesse mesmo se aproximando.

        Um policial brasileiro tentou barrar-lhe os passos. Blake mostrou-lhe as

credenciais diplomticas e, empurrando a massa ululante de jornalistas, entrou no

amplo saguo do hotel, onde mais uma multido de reprteres dominava a cena. Um

deles o reconheceu:

        -- Senhor Sherman Blake! Pode nos dar uma entrevista? Blake afastou-o, de

mau humor:

        -- I don't speak Portuguese!



        Calu seguia pelos telhados furtivamente, com uma maciez incapaz de

deslocar uma telha sequer. Ele conhecia a planta do Colgio Elite como a palma da

mo e, mesmo no escuro, sabia muito bem para onde se dirigia. Vez por outra o trajeto
o obrigava a saltos de trapezista, para alcanar telhados separados. Mas a pressa e a

ansiedade de reencontrar Magr e Chumbinho no o faziam perder a concentrao.

Se algum dos tiras americanos que enxameavam l embaixo o descobrisse, tudo

estaria perdido.

           Chegou aos telhados que cobriam as salas das primeiras sries. Dali,

passando pelo recreio dos pequenos, faltaria pouco para atingir os vestirios e o

esconderijo secreto dos Karas.

           "Ah, tomara que nossa hiptese esteja certa! Tenho de encontrar Magr e

Chumbinho. E eles tm de estar bem!"

           De repente, seu olhar j acostumado  escurido divisou algo estranho. Eram

duas sombras encolhidas na juno de dois lances de telhado.

           "Ser que so eles? Que danados! Esconderam-se no telhado!"

           Abaixou-se silenciosamente e avanou com cautela redobrada. Poucos

metros depois, mal iluminado pela claridade difusa vinda debaixo, um casalzinho

estava encolhido e abraado num desvo do telhado.

           "timo! Como eu pensava, Chumbinho e Magr esto... Ei, Mas essa no  a

Magr!"

           Calu estava paralisado, de boca aberta e olhos arregalado  frente dele,

enrodilhada em Chumbinho, estava filha do presidente dos Estados Unidos!

           Um turbilho de dvidas e sentimentos confundia seu corao e crebro num

s rgo.

           O que fazia ali aquela menina cujo desaparecimento levava o mundo 

loucura?

           Onde Magr tinha se metido?
        E por que Chumbinho estava de cuecas?



        Com a agitao que havia tomado conta do hotel, a pequena sala de

contabilidade estava vazia, pois todos os funcionrios tinham sido mobilizados para

servir  comitiva presidencial americana, agora avolumada pelo aparato policial e

militar que as circunstncias haviam imposto: homens fardados ou em ternos escuros

tudo exigiam dos exaustos funcionrios.

        Um homem de preto entrou na salinha e, sem acender a luz, ligou um

computador. Digitou alguma coisa e introduziu um disquete no drive. Em pouco tempo,

retirava o disquete, desligava tudo e saa furtivamente, ajeitando a gravata.

        O Doutor Pacheco debatia aspectos da investigao com os Presidentes

Rodrigues Lobo e MacDermott, quando rompido por um longo bip vindo do monitor.

        -- O que foi isso?

        Na tela, um texto berrava, em letras garrafais:




        Ao mesmo tempo, os dois presidentes e vrios policiais, assessores e

militares que ocupavam a sala liam a nova comunicao:
        -- Que canalhas! -- exclamou Rodrigues Lobo.

        Em seguida, o monitor exibia um novo texto:

        Estou bem, papai. Eles no esto me ameaando. Apenas faa tudo o que

eles pedirem e eles vo me soltar. Estou realmente muito bem, no se preocupe

comigo. Sinto-me como se estivesse em Nova Yorty, como eu falava quando era

pequena. Rpido, papai. Salve-me. Peggy, sua canguruzinha.

        MacDermott estava lvido, sem conseguir tirar os olhos do monitor:

        -- Acho que ns dois subestimamos a oposio, Augusto. O que eles querem

 guerra. E vamos ter de lutar!

        O presidente brasileiro apoiou a mo no ombro do amigo americano,

tentando confort-lo:

        -- Vamos ser fortes, Wilbur. Tenho certeza de que toda nao brasileira est

do seu lado, neste momento.
        MacDermott estava mais decidido do que nunca. Voltou-se para a secretria:

        -- Miss Malloy! Onde est o texto do meu discurso? Quero repassar os olhos

nele.

        O Doutor Pacheco perguntava, nervoso:

        -- Senhor presidente, h algo nessa mensagem que possa provar que ela foi

escrita mesmo pela senhorita Peggy? Ela falava errado a palavra "York" quando era

pequena?

        MacDermott examinava cada palavra da mensagem.

        -- Hum... No me lembro, toda criana fala errado no ? Mas os

seqestradores nunca poderiam saber que eu s vezes chamo minha filha de "my little

kangaroo".  uma brincadeira, por causa das diabruras que ela faz na cama elstica e

nas barras assimtricas. Foi ela mesma quem escreveu este texto sim, Doutor

Pacheco. Bom, pelo menos isso quer dizer que minha filha ainda est viva!

        Nesse momento, a porta da sala foi aberta e J. Edgar Hooper estava de volta,

transtornado com o contedo das mensagens que havia lido no monitor da sala dos

agentes da CIA.

        -- Mister President, perdoe-me a interferncia de ainda h pouco. A situao

 dramtica e ficarei a seu lado, quaisquer que sejam suas decises.

        -- Est bem, Hooper -- concordou MacDermott. -- Confio plenamente em

sua lealdade.

        -- Obrigado, Mister President. Eu no o decepcionarei.
                             11. De onde voc surgiu?


           A juno dos dois telhados criava um rea sombreada, livre da iluminao

que vinha do ptio de recreio do pr-primrio do Elite. Os homens de preto j no

circulavam tanto, mas infelizmente dois deles tinham resolvido dar uma descansada e

conversavam sentados nos balancinhos, que ameaavam desabar com seu peso.

           Com um enorme ponto de interrogao no olhar, Calu havia se juntado a

Chumbinho e  surpreendente presena de Peggy MacDermott ali em cima.

           O menor dos Karas sorria, aliviado com a chegada do amigo. Eles agora no

estavam mais ss.

           No podiam falar, no podiam fazer nenhum rudo, Chumbinho pegou no

brao do amigo e comeou a contar o que tinha acontecido. Com apertes curtos e

longos usava o cdigo Morse-Aperto, inventado pelos Karas para ser usado quando

tinham de falar um com o outro no meio de um monte de gente, sem que ningum

notasse.

           Como no cdigo Morse, antigamente usado pelos telegrafistas, a combinao

de apertos curtos e longos substitua as letras do alfabeto.

           --E-s-t-a--a-f-i-1-h-a-d-o-p-r-e-s-i-d-e-n-t-e-V-o-c--n--o-v-a-i-a-c-r-e-d-i-t-a

 -r-C-a-l-u-m-a-s-M-a-g-r--f-o-i-s-e-q--e-s-t-r-a-d-a-n-o-l-u-g-a-r-d-e-l-a-T-e-m-o-s-d-

 e-e-s-c-o-n-d--l-a-p-o-r-q-u-e-s-e-o-s-s-e-q--e-s-t-r-a-d-o-r-e-s-d-e-s-c-o-b-r-i-r-e-m
 -o-e-n-g-a-n-o-n-a-c-e-r-t-a-v--o-m-a-t-a-r-M-a-g-r-...

         -- V-o-c--f-i-c-o-u-l-o-u-c-o-C-h-u-m-b-i-n-h-o?

         O Cdigo Morse foi um dos mais usados em telegrafia no passado. A

comunicao  feita por batidas, por clares ou at por escrito. Tudo no passa de

uma combinao de pontos e traos, ou batidas curtas e longas:




         Peggy no podia entender o que estava acontecendo: os dois rapazes

pegavam no brao um do outro, apertavam-se e olhavam-se nos olhos, como se

conversassem! Pareciam um par de malucos, fazendo expresses de dvida,

surpresa e deciso, como se realmente um estivesse ouvindo o que o outro dizia!

         E... como era bonito aquele novo gato que tinha ido rastejando pelos

telhados! Era mesmo um gato!

         Embaixo, os tiras americanos levantavam-se dos balancinhos e sumiam de

vista. O ptio estava momentaneamente vazio.

         Peggy olhava fascinada para os rapazes. Alguma coisa aqueles dois malucos

deviam ter combinado, porque, de repente, Chumbinho acenou para a garota pedindo

calma e apontando o amigo. Em seguida, ps-se a rastejar pelos telhados, logo

desaparecendo de vista.

         A seu lado, o rapaz bonito tocava os lbios com o dedo, pedindo silncio.
Tomou-lhe as mos e olhou-a firmemente, para dar-lhe confiana. Nessa hora, o

sorriso que o rapaz lhe dirigia iluminava a noite e o corao da filha do presidente dos

Estados Unidos...



         -- Mister President, aqui estou. Nossa menina... ahn... sua filha... eu... --

Sherman Blake apresentava-se ao seu superior, ansioso e embaraado. -- Ai, se eu

no tivesse sado do lado dela, nada disso teria acontecido! Que tipo de

guarda-costas sou eu?

         -- Blake, meu amigo, a culpa no  sua -- acalmou-o suavemente o

presidente americano. -- Fui eu que quis que voc ficasse aqui, no hotel, junto comigo,

enquanto os agentes da CIA levavam Peggy para o colgio da amiga. Quando voc

decidiu ir para l, nada mais havia a fazer.

         Um oficial americano aproximava-se, vermelho com um pimento:

         -- A mensagem foi transmitida daqui mesmo, Mister President. O endereo

eletrnico do transmissor  o do hotel. Algum usou um dos computadores daqui e

endereou a mensagem de miss Peggy para o endereo de e-mail secreto da CIA,

que faz com que as mensagens recebidas entrem no monitor automaticamente!

         -- Que horror! -- exclamou Rodrigues Lobo. -- Esses bandidos conhecem

at os cdigos secretos da CIA!

         -- Reunimos todos os funcionrios do hotel e estamos interrogando um por

um -- continuava o oficial. -- Mas  improvvel que consigamos alguma coisa por a...

         MacDermott derreou-se numa poltrona.

         -- Estamos nas mos deles, Augusto! Nas mos deles...

         Rodrigues Lobo apoiou a mo no ombro de MacDermott, mostrando que
estava a seu lado, ainda que soubesse ser impossvel consol-lo.

         Miss Malloy aproximava-se de seu presidente, com uma importante

informao:

         -- Mister President, logo que foi informada do seqestro, sua esposa

embarcou de Washington para c. Eram cinco horas, horrio de Nova York, senhor.

Ela dever chegar ao Brasil a uma da madrugada, horrio daqui.

         -- Ligue-me com o avio dela, miss Malloy -- pediu MacDermott,

desanimado --, por favor...

         A ligao foi imediatamente completada e os outros se afastaram, para deixar

o americano  vontade.

         -- Hello, honey... Como voc est suportando essa desgraa? Ah, voc 

forte demais, minha querida! Se eu pudesse, trocava meu mandato pela vida dela...

Eu sei, eu sei. Mas  que Peggy... Como? Mas  nossa nica filha!... Est bem,

querida. Se voc pode agentar, eu tambm tenho de conseguir. Vou continuar, pode

estar certa. No, no vou desistir agora!... Obrigado, amor, voc  uma rocha... I love

you too...

         De fora, do grande auditrio de entrevistas, vinha o alarido dos jornalistas que

protestavam contra a falta de informaes sobre os desdobramentos do caso:

         -- Liberdade de imprensa! Exigimos liberdade de imprensa!

         Quando Wilbur MacDermott desligou o telefone, todos se voltaram para ele.

Parecia um novo homem, convencido do que tinha a fazer. Surdo aos protestos dos

jornalistas, olhou fixamente  sua frente. Encarava homens de verde, os homens de

preto, Rodrigues Lobo, J. Edgar Hooper, Sherman Blake e o Doutor Pacheco,

reunidos como o elenco secundrio de uma pea  espera da fala do protagonista.
         A imagem do presidente americano no era mais a de um pai desolado com a

possibilidade de perder a nica filha. Respirando em pequenos haustos, como se

tivesse corrido, procurava controlar-se. Solenemente declarou:

         -- Muito bem, senhores. No h nada que esses bandidos possam fazer para

me dobrar. Jamais negociarei com terroristas. Se for necessrio que minha filha morra

para que este mundo possa ser um pouco mais feliz e mais justo, assim ser. Acabo

de falar com a me dela. Minha mulher disse que, se ela pode aceitar esse risco

extremo eu tambm tenho de conseguir. E estou certo de que at mesmo ela, a minha

Peggy, estaria disposta a esse sacrifcio final pelo que  justo.

         Os homens ouviam em silncio, emocionados pela deciso de Wilbur

MacDermott.



         "Eu sei onde estou... Os Karas precisam entender o meu cdigo...

Precisam..."

         Magr encolhia-se de frio sobre o plstico gelado da barraquinha. De fora,

vinham as vozes dos seus guardas, cansados da espera:

         -- I need some booze! Preciso de bebida...

         -- Shut up! Cale a boca. No venha piorar a situao. Voc sabe que o

captain no perdoa nenhum deslize. Voc quer morrer, ? J se esqueceu como 

nosso captain com a faca de guerra na mo?

         "O capito!", pensava a prisioneira."Quem ser ele? Porque ele falava to

baixo? Ser que era para que eu, para que Peggy no ouvisse o que ele dizia? Se for

por isso... J sei! Se ele no queria que eu o ouvisse,  porque filha do presidente

poderia reconhecer sua voz. Que horror! Peggy conhece esse bandido!"
           Para no dar na vista, Miguel e Crnio no faziam a guarda da calada juntos.

Alternadamente, cada um andava para cima e para baixo, enquanto o outro

permanecia de sentinela. Por isso, o geninho dos Karas estava distante quando

Miguel ouviu o combinado pio de coruja:

           -- Uh-uh...

           -- Uh-uh-uh... -- respondeu ele, sinalizando que o caminho estava livre.

           Em pouco tempo, o mais jovem dos Karas, o menino que tinha ousado

esconder a filha do presidente dos Estados Unidos, pulava suavemente para a

calada.

           " Chumbinho! E... est pelado?! O que houve?", surpreendeu-se Miguel.

           Agilmente, Chumbinho desceu do muro e escondeu-se sob a sombra de uma

rvore para que nenhum passante desconfiasse da presena de um menino em

cuecas s nove da noite em plena rua.

           Miguel encostou-se no tronco e ouviu o que Chumbinho tinha a contar.

           -- Miguel, voc nem vai acreditar! Oua s...

           No fim do relato, falando o mais baixo que era possvel, Miguel decidiu:

           -- Voc agiu bem, Chumbinho. Seu plano  o mais louco em que j nos

metemos, mas era a nica coisa a ser feita. Se Peggy aparecer, os bandidos mataro

Magr, sem piedade. Mas  muito perigoso esconder a menina nos telhados. Volte l e

traga Peggy. Diga a Calu que ns temos de circular disfarados. Ele saber o que

fazer. V, Kara.

           -- Certo, Kara.

           Nesse momento, Crnio se aproximava e quase levou um susto ao encontrar

o menor dos Karas nas sombras:
        -- Chumbinho! Onde voc esteve?

        -- Voc nem imagina, Kara!

        -- Onde est Magr?

        -- Esse  o problema...

        -- Calu encontrou voc?

        -- Encontrou. Ele ficou l em cima, no telhado.

        -- Mas diga logo o que aconteceu!

        -- Uma loucura, Kara!

        -- E que histria  essa de andar de cuecas?

        -- Sem comentrios -- cortou Chumbinho. -- Emergncia mxima  apelido,

Kara. Prepare-se para a luta. Magr foi seqestrada!

        O sangue fugiu do rosto do gnio dos Karas:

        -- Magr foi seqestrada?! Mas como? E a filha do presidente?

        -- Tambm. S que essa fui eu quem seqestrou!



        Peggy MacDermott no conseguia tirar os olhos do rosto do rapaz, que

tambm no desviava o olhar. O sorriso dele era terno, calmo, transmitia tranqilidade,

segurana... E algo mais, muito, muito mais...

        "Como  o seu nome?", queria perguntar a menina, sem poder falar. "Quem 

voc? De onde voc surgiu? Para onde voc est me levando?"

        Apesar do frio intenso, uma onda de calor veio subindo, subindo pelo corpo

de Peggy e ela sentiu-se flutuar sobre os telhados, como se nada de slido a

prendesse, quando os braos do rapaz a envolveram, protegendo-a. Por um louco

momento, Peggy esquecia-se do imenso perigo que estava enfrentando. Nada mais
havia, seno aquele rapaz...




                          12. Droga de americana!


        Depois que Chumbinho desapareceu na escurido dos telhados, Crnio no

conseguia acreditar no que o garoto tinha contado:

        -- Magr, na mo de seqestradores! E para salvar a pele dessa gringa...

Droga de americana!

        Miguel no gostou do mau humor do amigo:

        -- Magr fez o que tinha de fazer. Exatamente o que voc faria, no lugar dela.

        Com Magr em risco de vida, estava difcil para Crnio controlar-se:

        -- Precisamos do Chumbinho e do Calu de volta logo, Miguel. Esse

helicptero j deve estar longe, a esta hora. Temos de agir! Cad esses dois Karas?

        -- Esto vindo. E Peggy vir junto.
        -- No gosto disso. Essa droga de americana vai acabar nos atrapalhando!

        -- Controle-se, Crnio! -- ralhou Miguel. -- Chumbinho contou que a menina

 valente. Disse que at parece um Kara de verdade!

        -- No gosto disso mesmo, Miguel. No gosto nem pouco disso. A nica

menina que  um Kara de verdade  a Magr!

        -- No adianta discutir agora. Eles esto muito vulnerveis, escondidos em

cima do telhado. E no podemos expor a filha do presidente, seno Magr estar

perdida. Mandei que Calu arranjasse um modo de nos disfarar. Precisamos do

anonimato para investigar. Se a gente ficar especulando por l, o Andrade vai cair na

nossa pele, com aquele jeito de paizo dele, e vai acabar descobrindo o que estamos

fazendo. O que ser de Magr ento?

        -- Est bem, Kara -- concordou Crnio, ainda descontente com essa histria

de comparar uma americaninha desconhecida com sua inigualvel Magr.

        -- Magr foi demais! -- comentou Miguel. -- Salvou a vida da americana,

sacrificando-se em seu lugar. Fazer-se passar pela filha do presidente dos Estados

Unidos era mesmo a nica sada. A idia de um Kara!

        Crnio avaliava a situao e no parecia contente com o que conclua:

        -- E por quanto tempo voc acha que Magr vai conseguir manter esse jogo,

Miguel? Voc no v como isso  arriscado? Infelizmente o plano dela s serviu para

salvar Peggy. Na hora em que ela chegar onde quer que os bandidos a estejam

levando, algum dos seqestradores vai perceber o erro cometido. E, da...

        Miguel ouvia o amigo com as sobrancelhas franzidas. No o interrompeu.

        -- O que eu quero dizer ... Quero dizer que... que tudo o que Chumbinho fez

talvez no baste para salvar a vida de Magr. Talvez nem tenha adiantado nada ele
esconder essa menina. Se os bandidos descobrirem o engano, Magr estar morta!

          Compreendendo os riscos da deciso de Magr, o lbio inferior do lder dos

Karas tremeu. Crnio continuava:

          -- Magr assumiu conscientemente esse sacrifcio, Miguel. Ela entendeu que

o desaparecimento ou a morte da filha do presidente provocaria uma verdadeira crise,

enquanto, no caso dela, seu desaparecimento, sua prpria morte, no alterariam em

nada a situao do mundo!

          Juntos, os dois Karas haviam concludo que a situao no tinha remdio:

salvar Magr, que salvara Peggy, era praticamente impossvel.

          Aps uma pausa, Crnio suspirou fundo:

          -- Desgraadamente  isso. Mesmo que Magr consiga continuar enganando

os bandidos, h ainda outro perigo, e esse no temos jeito de evitar...

          -- Outro perigo?! -- Miguel estava ofendido, corno se o raciocnio de Crnio

fosse o culpado pela situao de Magr. -- Voc no acha que j temos perigos

demais?

          -- Mesmo que Magr consiga engan-los, esses seqestradores podem

resolver matar Peggy, isto , Magr, mesmo depois de receberem o resgate, ou seja l

o que tenham exigido em troca da menina!

          -- O que voc est dizendo, Crnio?

          -- E as trs garotas que estavam no vestirio, Miguel? Esqueceu-se delas? 

claro que elas devem ter dito aos policiais que Peggy estava no vestirio junto com

Magr!

          -- Nesse caso, a polcia pode pensar que os seqestradores levaram as

duas... -- Mas os seqestradores sabem que s levaram uma! E da, mesmo que
Magr consiga engan-los mais um pouco, quando souberem de algum noticirio

falando do desaparecimento de duas meninas, vo querer descobrir qual das duas

eles levaram, no? E isso seria...

           Miguel baixou os olhos:

           -- Isso seria o fim de Magr, no  isso o que voc quer dizer?



           MacDermott entrou no luxuoso banheiro dos aposentos presidenciais.

Sherman Blake o seguiu.

           O banheiro era imenso e reluzia de tantos dourados. O presidente americano

abrira uma torneira da pia, provocando um jorro forte, e estava com a cabea debaixo

d'gua.

           -- Wilbur...

           O presidente levantou a cabea molhada e recebeu uma toalha das mos de

seu guarda-costas, que, atrs dele, estranhamente ousava cham-lo pelo primeiro

nome

           -- Ahn? O que voc quer, Blake?

           A expresso do atltico Sherman Blake era desafiadora:

           -- Eu quero que voc salve a vida de Peggy, seu miservel!

           -- Como?! -- os olhos do presidente arregalaram-se, surpresos com o

absurdo de ser tratado daquela forma por um subordinado.

           -- O que  isso, Blake?

           O guarda-costas tremia enquanto falava:

           -- Deixe o orgulho de lado, Wilbur! Peggy vale mais do que o seu maldito

orgulho!
         -- Blake! Voc enlouqueceu? Ns somos amigos h muitos anos, mas isso

no lhe d o direito de...

         -- Muuuuitos anos mesmo, Wilbur! -- Blake quase gritava. -- E foram anos

em que voc s pensou em si mesmo, na miservel da sua carreira. Anos em que

jamais teve tempo para a pequenina Peggy! Nem voc nem sua mulher. Vocs dois s

sonhavam com o poder, com conchavos polticos, jantares diplomticos, enquanto eu,

somente eu, fazia o verdadeiro papel de pai para ela!

         -- Blake, controle-se! Eu exijo que voc se controle.  natural que esteja

sofrendo, todos ns estamos sofrendo, mas  preciso manter a cabea no lugar!

         -- Cabea no lugar! -- Blake ria nervosamente, descontrolado. -- O nico

lugar em que sua cabea sempre esteve foi nas nuvens, com seus sonhos doidos de

poder, de prestgio! Pois agora, pelo menos agora, aproveite a oportunidade. Defenda

a vida da menina. Tente am-la um pouco, como eu a amo!

         Os gritos no banheiro presidencial foram ouvidos no salo. E, quando

Rodrigues Lobo, Pacheco e Hooper para l acorreram, viram o guarda-costas

presidencial soluando como uma criana, abraado a MacDermott.

         -- Vamos, Blake... -- consolava o Presidente, compreendendo a exploso do

amigo, que sempre havia amado e se dedicado a Peggy, como se ela realmente fosse

sua filha. -- Agora, calma... Tudo vai acabar bem, voc vai ver, tudo vai acabar bem...

         -- Salve a minha Peggy, Wilbur... Por favor, salve a minha menina... Por

favor... Faa qualquer coisa... O que tiver de ser feito... Salve Peggy... Ela  tudo o que

eu amo nesta vida...

         Os soluos de Blake calavam a todos. "Ah, que coisa mais triste!", pensava

Pacheco. "A dor de perder algum a quem se ama... "
         "O que eu posso dizer?", hesitava Rodrigues Lobo. O que eu faria, se tivesse

de decidir entre a felicidade do planeta e a vida da minha filha?"

         Hooper balanava a cabea, estranhando a cena: Quem  que est sofrendo

realmente como um pai? MacDermott?... Ou Blake?"

         -- Uh-uh!

         --  Chumbinho com a filha do presidente, Crnio. Responda.

         -- Uh-uh-uh...

         Em um minuto, Chumbinho descia do muro trazendo a menina mais

procurada do pas.

         O lder dos Karas reconheceu-a da exibio de ginstica daquela tarde,

quando seu corao sentira-se apertado. Agora, vendo-a de perto, ainda que suja por

ter-se arrastado pelos telhados, vestindo o uniforme de Chumbinho, aquela sensao

voltou-lhe, mais forte ainda, perturbando as emoes de Miguel.

         -- Here we are, Peggy -- anunciou Chumbinho. -- Chegamos. Estes so os

meus amigos.

         A expresso da filha do presidente dos Estados Unidos era segura, decidida,

de quem sabe que ningum ali estava brincando.

         Por um breve momento, Miguel deixava que a emoo lhe dominasse a

cabea. O rosto de Peggy entrava-lhe pelo olhar e em seu corao acomodava-se.

Sacudiu a cabea, procurando afastar aquela sensao inoportuna e decidiu,

recuperando o controle sobre si mesmo:

         -- De agora em diante s vamos falar na lngua dela. Ela precisa entender

tudo o que combinarmos. Peggy, obrigado por nos ajudar a proteger Magr.

         -- E o que mais eu poderia fazer? -- disse a americana com uma coragem
encantadora. -- Ela est arriscando a prpria vida por mim, no est?

        -- Certo. Agora suba nesta rvore -- ordenou Miguel, como se fosse a coisa

mais natural do mundo dar ordens para a filha de um presidente. -- Voc precisa ficar

escondida, at que Calu possa disfar-la.

        Agilmente, a americana obedeceu, desaparecendo entre as ramagens.

        O rosto de Crnio queimava. Para salvar aquela intrometida, sua querida

Magr estava nas mos de bandidos. E a vida de Magr era tudo para aquele rapaz:

        "Droga de americana! Por que essa danada tinha de vir para o Brasil? Ai, o

que vai ser da minha Magr? Droga de americana! Droga de americana!"

        -- Uh-uh!

        Desta vez era Calu que chegava.

        Chumbinho emitiu os pios de coruja avisando que a frente de batalha estava

livre, e o ator dos Karas logo desceu do muro. Carregava um saco, feito Papai Noel.

Tinha rastejado pelos telhados em outra direo e, afastando algumas telhas,

conseguira entrar no teatro do Colgio Elite. De um dos camarins, pegou um estojo de

maquiagem, procurou por perucas, escolheu alguns adereos e estava quase saindo

quando se lembrou da figura de Chumbinho, de cuecas. No escuro, apanhou um par

de calas qualquer, do armrio de figurinos.

        -- Est tudo a, Calu?

        -- Tudo, Miguel.

        -- Vamos. Depressa!

        Miguel organizou a sesso de transformaes que agora seriam operadas

por Calu. Crnio ficaria por ltimo esperando discretamente no meio da aglomerao

que se mantinha inalterada  frente dos portes da rea esportiva. Talvez alguma
novidade surgisse por ali.

         No alto da rvore, o jovem ator dos Karas comeou a planejar a maquiagem

de Peggy. A menina teria de ficar irreconhecvel, ainda que o prprio pai trombasse

com ela na rua.



         "Os Karas no vo me libertar... No h mais tempo... Eu vou morrer... vou

morrer... "

         As foras de Magr tinham chegado ao fim. Sem uma pea de roupa sobre o

corpo entorpecido pelo frio, nada mais havia para ela fazer, alm de chorar e

silenciosamente despedir-se da vida:

         "Adeus, mame... adeus, papai... adeus, meus queridos Karas... adeus,

Crnio, meu amor! Crnio... Por que eu no segui o que o meu corao mandava e

fiquei para sempre com voc? Ai! Para sempre? No h mais 'para sempre'... Esses

bandidos vo me matar... vo me matar... "

         Lutou para no soluar. Mesmo no fim de sua vida to curta, ela havia de

morrer como um Kara:

         "Adeus, meus amigos... para sempre... "
                              13. O fim de Magr


        Discretamente, Crnio circulava pelo meio da multido, com os ouvidos em

alerta,  espera de alguma informao que prestasse, quando ouviu algum chamar:

        -- Jernimo! Anda logo com essa cmera!

        Era o mesmo reprter, ajeitando-se  frente da cmera de tev, pronto a

revelar mais uma novidade daquele rumoroso seqestro:

        -- Aqui, Solano Magal, mais uma vez falando diretamente do Colgio Elite,

de onde foi seqestrada a filha do presidente americano. Acabamos de descobrir que

as trs meninas que estavam nos vestirios com a senhorita Peggy foram

encontradas nervosas demais e no puderam ser interrogadas. Esto agora sob o

efeito de calmantes e sero levadas a um hospital onde ficaro em observao at

amanh. Mas parece que a internao  apenas uma medida de cautela, porque nada

de grave teria acontecido com elas...

        "Um problema a menos... ", raciocinava Crnio. "As meninas no falaram de

Magr. Que timo!"

        Nesse momento, o geninho dos Karas avistou ao longe o corpanzil do

detetive Andrade, reclamando na frente dos portes.

        Ainda havia um problema a resolver. Crnio precisava agir. E rpido!

        "Droga de americana! Ser que ela vai cooperar?"
         Debaixo da rvore, Chumbinho bronqueava:

         -- Ei, Calu! Que brincadeira  essa? Como  que eu vou usar essas calas?

         Encarapitado num galho, Calu preparava-se para disfarar Peggy e, l de

cima, respondeu:

         -- Foi o que deu pra pegar no escuro. Sinto muito. Arregace um pouco as

pernas, que vai servir...

         -- Que ridculo, Kara!

         De sentinela, Miguel olhou ao longe e imediatamente levantou a mo:

         -- Calu, Crnio est vindo para c. Fez o sinal de "parar tudo e esperar".

         Calu parou de ajeitar uma peruca na cabea de Peggy. Seus olhos

encontraram-se. A filha do presidente americano era... hum... era uma graa!

         A menina olhava-o firme, examinando seu rosto bonito sob a fraca iluminao

que conseguia intrometer-se entre as folhas. Sinais secretos? Cdigos que se

transmitem com apertes? Sinalizao com pios de coruja? E perguntou:

         -- Quem so vocs? O que so vocs? Policiais-mirins? Agentes secretos?

         Calu no esperava pela pergunta e titubeou:

         "E agora? Como  que eu vou falar dos Karas?"

         -- Bem... hum... ehr... humpf... no... quer dizer, sim...

         -- Sim o qu? So agentes secretos?

         -- No... bem, sim... quer dizer... mais ou menos...

          Para sua sorte, nesse instante Crnio chegava sob a rvore, com novas e

estranhas ordens:

         -- Calu, preciso da Peggy.

         -- Como?
          -- Ei, Peggy! -- chamava Crnio. -- Magr j se fez passar por voc, no foi?

Que tal agora voc se fazer passar por Magr?

          -- All right -- respondeu a menina, de cima da rvore. -- O que voc quiser.

O que eu tenho de fazer?

          -- Como assim, Crnio? -- protestou Calu. -- Eu ia maqui-la de mulata, vai

ficar um estouro!

          -- Depois, Kara. Primeiro preciso dela no papel de Magr. Miguel, me

empreste a bicicleta!

          -- Certo, Kara -- concordou Miguel, correndo para onde tinha deixado a

bicicleta acorrentada, sem perguntar qual era o plano do amigo.

          -- Peggy, listen... -- sussurrava Crnio. -- Oua que eu quero que voc

faa...

          Em poucos minutos, Peggy MacDermott estava pedalando a bicicleta de

Miguel, com o cabelo ajeitado do modo como Magr normalmente usava. De longe,

com o moletom do Elite que Chumbinho lhe havia emprestado talvez o plano de

Crnio pudesse dar certo...



          Uma ambulncia chegava aos portes do complexo esportivo do colgio com

a sirene gorgolejando como um peru enlouquecido e exibindo um letreiro na

carroaria: "Hospital Brasiliano -- Resgate Terrestre".

          Do colgio, protegidas por vrios agentes da CIA, trs macas vinham sendo

carregadas na direo da ambulncia.

          "Magr! Uma das macas deve estar trazendo a Magr!", Andrade rompeu a

multido, procurando ver quem estava sendo carregado.
         Na primeira maca, encontrou uma garota de cabeleira negra, cacheada. Nas

outras, mais duas alunas desconhecidas. Nem sinal de Magr.

         -- Como?! Onde est Magr?

         Antes que o gordo detetive se pusesse a berrar no meio da rua, algum

tocava amistosamente em seu ombro. O detetive voltou-se:

         -- Quem... ? Oh,  voc, Crnio? O que est fazendo aqui?

         O rapazinho exibia a cara mais inocente deste mundo:

         -- Nada... Eu tinha de vir pegar um CD-ROM de pesquisa na sala de

computao e...

         -- Uma pesquisa? -- estranhou Andrade. -- A essa hora?

         -- So as provas finais do semestre, Andrade... Um sufoco! Mas eu nem

imaginava que tinha acontecido uma coisa dessas logo no nosso colgio!

Seqestraram a filha do presidente americano, ? Puxa! Vou correndo pra casa!

         O detetive estava alterado, sem querer contagiar o rapaz com seus temores:

         -- Eu...  que... Onde esto os outros?

         -- Quem? Miguel, Calu e Chumbinho esto em casa, estudando para as

provas. Magr foi para a casa de uma amiga, aqui perto, depois da exibio de gin...

         O detetive surpreendeu-se, abrindo os braos, numa posio de quem

recebe um enorme presente:

         -- O qu?! Magr no estava dentro do colgio?

         Crnio sorriu, com uma cara de sonso ainda maior:

         -- Como assim, dentro do colgio?  claro que ela estava dentro do colgio

para a exibio de ginstica. Depois, ela foi para a casa da Sandrinha, que fica para l,

logo atrs do... Ei, Andrade! Veja. L vai ela!
        O confuso detetive olhou para onde apontava o garoto. A uns cinqenta

metros, uma menina com o uniforme do Elite passava pedalando tranqilamente sua

bicicleta, mal iluminada pelas luzes dos postes. E acenava na direo deles

        -- Magr!

        Andrade acenava de volta como um possesso e nem sabia o que dizer. Logo

a bicicleta virava uma esquina e desaparecia de vista. O detetive comeou a gaguejar:

        -- Magr! Olha, Crnio!  a Magr!

        -- Ora,  claro que  a Magr, Andrade... O que deu em voc?

        -- No...  que... sabe? Magr estava... quer dizer. Crnio, eu pensei que...

Mas que maravilha!

        E abraou o jovem amigo com uma fora de quem acabou de ser salvo de um

incndio:

        -- Crnio! Que beleza! Magr est salva! Salva!

        O rapaz abria a boca, fazendo-se de completamente desentendido:

        -- Salva? Mas de qu, Andrade?

        O detetive ria com gosto, beliscava a bochecha de Crnio e dizia:

        -- Olhe aqui, meu filho. Voc viu que desgraa aconteceu na sua escola, no

? Mas nem esquente a cabea. Pode deixar que, amanh, o colgio estar liberado

normalmente para as aulas. Agora pode ir para casa tranqilo. Deixe o problema

conosco. Haveremos de salvar a filha do presidente!

        -- Puxa, Andrade... tomara mesmo! Mas agora eu tenho de ir. Voc sabe,

no ? As provas do semestre...

        E Andrade ficou vendo o rapaz afastar-se calmamente. Em pensamento, o

gordo detetive gargalhava, com vontade de danar pela calada:
         "Magr! Que alvio! Magr saiu da escola antes do seqestro! Mas que

maravilha! Magr est fora disso! Est foooora!"

         S a custo algum muito ntimo poderia reconhecer Miguel, com enchimentos

nas roupas, um bigodinho nascente e bon enfiado at as orelhas. Do mesmo modo,

ningum descobriria que era Crnio quem estava atrs de grossas sobrancelhas

postias, nem Calu, cheio de decalques de tatuagens em todas as partes visveis do

corpo mal coberto por uma camiseta estampadssima e uma cabeleira arrepiada. E

talvez nem mesmo o presidente dos Estados Unidos conseguiria reconhecer a prpria

filha, com aquela peruca enroladinha e a pele morena, deliciosamente achocolatada.

         Agora, eles podiam circular  vontade.

         Quem no estava nem um pouco satisfeito era Chumbinho, por causa da

cala horrorosa que Calu havia trazido para ele. Alm disso, tivera de emprestar os

tnis para Peggy e, assim, descalo, com os cabelos escondidos um largussimo bon

de abas cadas sobre a face e o rosto disfarado por um par de culos

fundo-de-garrafa, o menino enfiara-se numa das mesas dos fundos da lanchonete da

italiana, onde suas pernas podiam ficar escondidas da vista dos freqentadores.  sua

frente, o aparelho de tev s transmitia notcias sobre o seqestro.

         Os outros quatro sentaram-se numa guia de calada onde manifestantes e

curiosos descansavam da viglia. Ali podiam discutir o que haveriam de fazer sem

despertar suspeitas.

         Estavam numa encruzilhada. Depois que Natlia e as outras duas alunas

tinham sido levadas para o hospital, nada mais havia no colgio que pudesse

ajud-los a localizar Magr.

         Peggy MacDermott quase elevava a voz, revoltada:
        -- Nem sei como, mas precisamos salvar Magr!

        -- O que faremos? -- perguntava Crnio, desorientado. -- Para onde

iremos? Como vamos descobrir para onde esses bandidos levaram Magr?

        -- Vamos lutar, Karas! -- conclamou Calu.

        Peggy continuava a estranhar aquele modo como os rapazes se tratavam:

        -- What's this Karas business? Que histria  essa de "Karas"?

        Os trs rapazes entreolharam-se. Calu deixara escapar mais um segredo

para a americana. O mais importante.

        Mas a soluo desse problema tinha de ser adiada. Um estranho rapazinho,

com um bon de l enfiado na cabea, calas desengonadas arrastando-se pelo

cho e culos to grossos que mal lhe permitiam enxergar em frente, chegava

esbaforido:

        -- Karas! Magr mandou uma mensagem para a gente!

        "Karas again? Outra vez isso de 'Karas'? Quem so esses garotos?", pensou

ela, mas o que disse foi:

        -- Yeah! Agora temos alguma coisa por que lutar! Vamos lutar!

        Os rapazes olhavam a americaninha, admirados. Era como se Magr

estivesse de volta. Peggy MacDermott agia como um verdadeiro Kara!

        Crnio desviou o olhar. Para ele, no era possvel aceitar qualquer garota no

lugar de Magr.
                       14. EU QUERO SER UM Kara!


        Miguel, Crnio, Calu e Peggy cercavam Chumbinho, lendo os dois textos que

a tev transmitira e que o menino havia copiado em dois guardanapos. O primeiro era

a sinistra ameaa dos bandidos. O segundo era uma mensagem que s poderia ter

sido redigida por Magr:




         Eu estou bem, papai... -- Crnio lia em voz sussurrada. - Eles esto me

ameaando. Apenas faa tudo o que eles pedirem e eles vo me soltar. Estou

realmente muito ao se preocupe comigo. Sinto-me como se estivesse Nova York,

como eu falava quando era pequena. Rpido, papai. Salve-me. Peggy, sua

canguruzinha...

        -- Nova York?!
        A decepo estava estampada no rosto dos cinco jovens. Nova York!

        -- Como se estivesse em Nova York? -- surpreendia-se Calu. -- O que ela

quis dizer com isso? Que est em alguma cidade parecida com Nova York? Ou que foi

levada justamente para Nova York?

        -- Isso  impossvel, Karas! -- raciocinou Crnio. -- So dez e cinco e Magr

foi seqestrada s seis e meia. Por mais rpido que seja esse helicptero, 

impossvel que tenha podido chegar a Nova York em apenas trs horas e pouco!

        --  claro! -- completou Miguel. -- Alm disso, vocs acham que os

bandidos iriam divulgar uma mensagem que mostrasse exatamente onde est Peggy,

isto , Magr?

        -- Isso! -- Calu mostrava esperana na voz. -- E se Magr nos mandou uma

pista,  porque ela sabe que  possvel a gente encontr-la!

        -- Pode no haver nenhuma mensagem em cdigo -- argumentou Peggy. --

 claro que Magr tinha de obedecer aos bandidos e fazer esse texto, na certa por

alguma condio imposta pelas negociaes que devem estar sendo feitas com papai.

A mensagem tinha de ser escrita de qualquer maneira, mesmo que ela no soubesse

onde est.

        -- No sei...  possvel... -- Crnio pensava concentrado, examinando a

mensagem. -- Pode ter alguma coisa a, sim... Talvez em "no se preocupe comigo"

ou em "no esto me ameaando''... Meu palpite  esse negcio de "seu pequeno

canguru"...

        -- Isso no  pista nenhuma! -- rebateu Peggy. --  um apelido que meu pai

me deu. Eu devo ter contado isso a ela e Magr usou a frase para provar ao papai que

eu estou bem e que sou eu mesma! Que menina esperta! Surpreendente!
        -- Surpreendente?! -- riu Chumbinho. -- Voc no conhece a Magr, Peggy!

        Miguel encerrou o debate:

        -- No adianta ficar especulando. De acordo com a ordem dos bandidos,

temos menos de duas horas para salvar Magr. Crnio, voc  o nosso especialista

em cdigos. Trate de decifrar a mensagem o mais rpido possvel. Chumbinho fica

para ajudar. Calu, volte para a porta da rea esportiva, de olho em novidades. Eu e

Peggy ficaremos aqui por perto, de guarda, para que ningum perturbe Crnio e

Chumbinho enquanto trabalham. Vamos l, Karas!

        Miguel mais uma vez deixava escapar a palavra "Karas", como se

conscientemente quisesse alimentar suspeitas de Peggy...

        Trs cmeras de tev j estavam instaladas na frente ampla mesa de

trabalho que fora destinada a Wilbur MacDermott nos aposentos presidenciais. Na

parede atrs da mesa as secretrias tinham grampeado uma bandeira americana ao

lado de uma brasileira, em deferncia ao pais que hospedava a comitiva americana.

        Tudo estava pronto para o discurso do presidente americano. Em menos de

duas horas, o mundo conheceria o teor de suas importantes decises e... a vida de

Magr estaria perdida.

        Crnio e Chumbinho estavam debruados numa mureta onde aproveitavam a

iluminao de um jardim para trabalhar no bilhete de Magr.

        A poucos passos dos dois, junto de Miguel, Peggy MacDermott estava

excitada. As quatro ltimas horas que haviam transcorrido desde que ela entrara no

vestirio do colgio para tomar uma inocente ducha tinham sido muito mais vibrantes

do que qualquer das horas de seus catorze anos de vida,tinha se envolvido numa

aventura mais incrvel do que o mais exagerado filme de Hollywood, fora carregada
nua para o forro de um vestirio por um garotinho maluco, sua amiga brasileira estava

seqestrada em seu lugar, trs rapazes fascinantes cuidavam dela e as bati das de

seu corao aceleravam-se toda vez que olhava o ouvia um deles, o gato que a

protegera um tempo, l no telhado, dentro de seu abrao. Bom, o garotinho maluco

tambm a protegera em seus braos no mesmo telhado mas... mas era diferente.

        O outro, o chefe do grupo de malucos, naquele momento tambm resolvia

passar o brao em volta de seus ombros e falava com um tom paternalista:

        -- No tenha medo, Peggy. Ns vamos conseguir. Magr ser salva!

        -- No estou com medo, Miguel. S quero saber uma coisa...

        -- O qu?

        -- Quem so vocs?



        Andrade enxugou a careca. O que ele iria fazer ali, agora que no havia mais

nenhuma testemunha importante dentro do Elite? Tomar outro sorvete, talvez? Afinal

de contas, por causa do seqestro, ele tinha perdido o jantar.

        Ao entrar na lanchonete da italiana, passou por um rapaz cheio de tatuagens

que, apesar do frio, vestia camiseta. Mas nem reparou nele.

        -- Who are you? A bunch of Rambos? Quem so vocs? Uma quadrilha de

Rambos?

        -- Rambo? No. Os Karas no usam de violncia. A inteligncia e a coragem

so mais eficientes do que qualquer arma!

        Miguel tinha acabado de contar tudo. Mas tudo mesmo No tivera sada.

Peggy havia presenciado os Karas em ao e, pela primeira vez, ele revelava o

grande segredo a algum de fora. Sim, eles eram os "Karas", um grupo secreto de
adolescentes que havia comeado a se reunir pelo esprito de aventura, pelo prazer

do perigo e pela sede de justia. A coisa toda havia comeado e deveria continuar

quase que somente como uma aventura imaginria, sem que jamais eles sonhassem

em um dia serem obrigados a enfrentar a realidade. Mas a realidade tinha sido mais

forte, tinha se imposto a eles e os havia envolvido em perigos reais, em aventuras

fantsticas em que a vida dos cinco Karas muitas vezes estivera por um fio.

        "Cinco loucos!", admirava-se a americaninha. "Mas que loucos maravilhosos!

Se a loucura  assim to fascinante, eu quero ser louca tambm!"

        Miguel, como se estivesse lendo seus pensamentos, declarou, gravemente:

        -- Peggy; eu nunca deveria ter lhe contado sobre os Karas. S que no tive

outro jeito. Agora s voc sabe do grande segredo. No mundo inteiro, ningum mais

sabe disso. Nem mesmo nosso querido amigo, o detetive Andrade, que j viveu tantos

perigos conosco, tem idia da existncia dos Karas. Ele pensa que tudo o que tem

acontecido com gente so coincidncias, que tem sido a sorte ou o azar que se

intromete em nossas vidas e nos envolve em problemas Mas, na verdade, somos ns

mesmos que nos intrometemos com a sorte e com o azar e procuramos os problemas.

        -- Fascinante, Miguel! Mas por que esse nome? O que quer dizer "Karas"?

        Miguel sorriu:

        -- No Brasil, as pessoas chamam maldosamente os velhos e chatos de

"coroas". E chamam de "caretas" os covardes, os bobocas egostas que no ligam

para os outros. Os "caras" ou "Os Karas", seriam o contrrio desses "coroas", o

avesso desses "caretas".

        -- Isso mesmo! -- concordou a menina. -- Vocs so exatamente o contrrio

dos velhos chatos, dos covardes, dos bobocas e dos egostas!
          -- Fui eu quem inventou esse nome, Peggy -- continuou o rapaz. -- Mas h

uma outra razo. Sabe aquele jogo que o mundo inteiro faz com moedas? Aqui, a

gente chama de "cara ou coroa" e vocs, na Amrica, de "heads and tails", ou

"cabeas e rabos". Assim, ns somos os Cabeas, sempre  frente da vida,

encarando o futuro, nunca um Rabo, que vive na retaguarda do mundo! Qual desses

voc prefere ser? Um Cabea, no topo de tudo? Ou um Rabo, sempre apontando para

o cho?

          Peggy agarrou-lhe os ombros, excitada:

          -- Eu quero ser um Kara, Miguel,  claro. Deixe-me ser um Kara! Por favor,

deixe-me ser um de vocs.



          Encostado na entrada da Lanchonete italiana, com uma cabeleira

inacreditvel, camiseta regata rasgada, coberto de brincos e colares e com adesivos

imitando tatuagens, Calu estava irreconhecvel. Como esse tipo de figurino

extravagante normalmente  usado para "aparecer", o disfarce era perfeito, porque 

claro que ningum prestava a mnima ateno nele.

          Ali era o lugar ideal, pois o rapaz podia ouvir as conversas de quem tinha

estado na aglomerao e aparecia em busca de um lanche ou pelo menos um caf

expresso. At mesmo alguns homens de preto da CIA passavam pela lanchonete e,

pensando que ningum dali entendia ingls, comentavam que as ordens do chefe

eram para apenas manter a posio e parar de vasculhar o colgio.

          No balco, seu amigo, o detetive Andrade, exausto, terminava uma grande

taa de sorvete, depois de ter devorado um sanduche.

          Cambaleando pela calada, um bbado chegou  lanchonete, carregando
uma garrafa de cachaa intacta debaixo do brao, e dirigiu-se para a italiana:

        -- Ischcuta'qui,  dona. Mi v uma da qui mat u guarda!

        A italiana respondeu, sorrindo:

        -- Desculpe, mas em lanchonete perto de escola no se pode vender

bebidas alcolicas.

        O bbado demorou uns segundos para compreender a recusa e protestou:

        -- Ischcuta'qui! Qui hischtria  escha? Comu  qui a schinhora vai quer qui

eu incari esscha noiti sschelada?

        A mulher riu, alto:

        -- Ora, me faa o favor! Por que no bebe da sua garrafa? Est cheinha!

        -- Num poschu... Escha garrafa num  minha...  du Alfredo... I eu num

possu toma a caisschaa du Alfredo, schem pidi lischena, t schertu o t erradu?

        Saiu cambaleando. Um pouco mais adiante, a resmungar, encostou-se numa

parede. Foi escorregando devagarinho e acabou adormecido na calada.

        Miguel calava-se por um instante. Por que tinha decidido abrir os segredos

dos Karas para a menina? E que direito tinha ele de contar tudo sem o consentimento

dos outros membros do grupo? Aquilo no tinha sido uma... uma traio? Que chefe

era ele, se no conseguia manter a lngua quieta dentro da boca?

        E ser que ele realmente precisava ter contado tudo, ou ser que, na verdade,

ele queria contar tudo? Ser q aquilo no teria sido uma forma de ele fazer com que

ficasse para sempre junto dele? De fazer com que seu sorriso sempre estivesse

aberto para ele, ouvindo suas idias e seguindo suas decises, vivendo a seu lado?

Agora porm, o que estava feito estava feito e Miguel tinha de garantir o silncio da

americana:
         -- Voc precisa jurar, Peggy. Os Karas j fizeram inimigos tremendos e

correramos enormes riscos se esses bandidos soubessem que somos um grupo

organizado, que realmente lutou para desmascar-los.  preciso que eles continuem

trancafiados nas cadeias onde esto, pensando que ns somos personagens

secundrios, que se envolveram sem querer em suas vidas criminosas.

         -- Fao o que voc disser, Miguel.

         -- Ponha a mo sobre o corao e jure que...

         Com a mo esquerda, Peggy segurou o pulso direito de Miguel e puxou-o,

apertando-lhe a mo sobre seu prprio corao, enquanto espalmava sua mozinha

direita sobre o corao do rapaz:

         -- Eu juro, Miguel, pelo meu e pelo seu corao, que, de agora em diante,

seus segredos so os meus segredos, sua coragem  a minha coragem, sua vida  a

minha vida!

         Os lbios do rapaz tremeram, seu corpo estremeceu, sentindo o calor e a

maciez do seio de Peggy MacDermott na palma de sua mo. Foi como se uma

descarga eltrica, carregada com os mais deliciosos volts do mundo, tivesse

percorrido o seu corpo.

         Sob a palma de Peggy, o corao de Miguel pulava como um cabrito solto no

pasto.
                              15. Corujas no telhado


           Crnio lia e relia o segundo guardanapo anotado por Chumbinho e perdia a

pacincia:

           -- No d, no d! No h nada neste texto que parea um dos nossos

cdigos. Magr no nos contou coisa nenhuma! E agora, o que vamos fazer?

           Chumbinho no aceitava o desnimo:

           -- Calma, Kara. Tem alguma coisa aqui. Eu tenho certeza de que tem alguma

coisa aqui. Vamos olhar de novo!

           -- No adianta olhar mais, Chumbinho. O texto que voc leu na tela da tev

era esse mesmo?

           -- Palavra por palavra, Crnio. Eu copiei tudo!

           -- Hum... -- resmungou Crnio, examinando novamente o guardanapo. --

Alm do "pequeno canguru", ela deve ter dado outra prova ao pai de que era mesmo a

Peggy...

           -- Onde, Crnio?

           -- Aqui, veja: "como eu dizia quando era pequena...".

           -- Dizia o qu? New York? Qualquer um fala New York com qualquer idade!

           Chumbinho deu um tapa na prpria testa:

           -- Ai, que mancada que eu dei, Kara!
         -- O que foi? -- estranhou Crnio.

         -- Ai, ai, ai, como  que eu fui fazer uma besteira dessas? Eu corrigi uma

palavra do texto na hora de copiar. Achei que tinha sido erro dos jornalistas da tev.

Que mancada!

         -- Mas que palavra era essa, Chumbinho? Ande logo!

         -- A palavra "York". Estava errada. Estava "Yorty"!

         O rosto de Crnio iluminou-se:

         -- S pode ser isso! Vamos aplicar o cdigo Tenis-polar!(1) -- Rapidamente,

Crnio pegou o guardanapo e escreveu a palavra TNIS logo acima da palavra

POLAR. -- Bom, temos dois "Y"... Vamos substitu-los por "I"...



         (1) Cdigo "Tenis-polar" - Basta escrever a palavra "TNIS" logo abaixo

palavra "POLAR", de modo que cada letra de "TENIS"fique acima de cada letra da

palavra "POLAR". Depois, para escrever uma palavra secreta, basta substituir uma

letra pela outra, desse modo: se houver um "T", substitui-se pelo "p", pois esta  a

letra correspondente. Se for "P" substitui-se pelo "T", da mesma forma. A letra "E" ser

substituda pelo "O", a letra "O" pelo "E", a letra "L" pelo "N", e assim por diante. As

letras da palavra secreta que no estiverem na palavra "TNIS" nem na palavra

"POLAR" no mudam. Exemplo: a palavra "DROGA" vira "DSEGI".



         Foi combinando as letras de "Yorty" com as letras correspondentes das duas

palavras do cdigo, mas a coisa no ia bem:

         -- No faz sentido, Chumbinho... S consigo "Aespa". Se eu no trocar o "Y",

fica "Yespy", ou "Iespi"... o que isso significa?
        -- Parece que no  por a, Crnio...

        O geninho dos Karas franziu a testa, concentrando-se. Gostaria de poder

sentar-se na calada e soprar sua gaita bem baixinho. Era assim que ele tinha suas

melhores idias.

        -- Vamos pensar, Chumbinho, pensar... Hum, se Magr no usou o cdigo

Tenis-polar foi porque com o nosso cdigo ela s conseguiria palavras sem sentido,

que dariam na vista. Ela deve ter criado uma variante. Mas, com que palavras? Na

certa ela tentou usar palavras fceis para ns... palavras comuns...

        Chumbinho tentava ajudar:

        -- Palavras comuns para os Karas? Ento s pode ser "perigo", "confuso"

ou "loucura"!

        -- Pensar... pensar... O que  mais comum para ns? Para qualquer pessoa?

Ei, e se fossem nossos prprios nomes?

        -- Vai ver  por a...

        -- Que nomes? KARAS-MAGRI? No, tem muitos "As", no ia dar...

"Chumbinho"  muito comprido e "Calu" e muito curto...

        -- Mas "Miguel" e "Crnio" tm seis letras.

        -- Pode ser, mas tem o "I" repetido. Ei, veja: e se ela substituiu um dos "I" por

"Y"? -- os olhos de Crnio brilharam. -- Vamos ver...

        E escreveu seu prprio apelido acima do nome de Miguel.

        -- Trocando o "I" de Miguel por "Y"... Hum, d "RLYTR"... Mas vamos ver se

eu trocar o "I" de "Crnio" por "Y"... Hum-hum... Ah-ah! Achei! Leia!

        No guardanapo, o geninho dos Karas havia escrito: E-L-I-T-E!

        A boca de Chumbinho escancarou-se. Crnio era demais! Tinha descoberto
que, substituindo o cdigo Tenis-polar por um cdigo inventado na hora, o cdigo

MIGUEL-CRANYO, Magr criara a palavra "Yorty" para dizer aos Karas que ela

estava... no Elite!

            -- Magr est no Elite?! -- Chumbinho no conseguia entender. -- Mas, e o

helicptero que eu ouvi? Ei, eu s ouvi o helicptero! Ah-ah, digo eu, Crnio! A caixa

preta!

            -- Caixa preta? Que caixa preta?

            Atrados pelo entusiasmo dos dois, Miguel e Peggy vieram correndo.

Chumbinho fazia uma fora danada para no dar pulos de alegria e atrair atenes

indesejadas:

            -- Agora tudo est se juntando na minha cabea!

            -- Se Magr usasse o cdigo Tenis-polar, "Elite" daria "Onapo". Como  que

ela iria escrever "Onapo" na mensagem sem dar na vista? Ai, essa menina  mesmo

genial! Os bandidos tambm so, mas os Karas so muito mais! Descobrimos!

            -- Controle-se, Chumbinho! -- ordenou Miguel. -- Voc quer dizer que Magr

est l, dentro do Elite?!

            -- Me diga uma coisa, Miguel -- continuou o menino, sem responder 

pergunta --, voc que  presidente do grmio do colgio. Por acaso a comisso de

festas resolveu colocar um alto-falante no telhado dos vestirios para as festas

juninas?

            -- Alto-falante?  claro que no. A festa vai ser no ptio de recreio do

colegial.

            Chumbinho estava radiante:

            -- Ai, ai, Karas! Eu no falei disso antes porque achei que no tinha
importncia. Acontece que, quando eu saa com a Peggy do esconderijo, trombei com

uma caixa preta bem ali em cima do telhado. Uma caixa de alto-falante!

        Peggy no estava entendendo:

        -- Alto-falante? Mas o que isso quer dizer, Chumbinho?

        -- Quer dizer que nuuuuunca houve nenhum helicptero! Os bandidos

transmitiram uma gravao do motor de um helicptero pelo alto-falante para todo

mundo pensar que eles estavam levando a seqestrada para longe! E os policiais

idiotas caram como patinhos!

        Miguel tentava entender:

        -- No Elite? Mas onde, no Elite? Se os bandidos no levaram Magr de

helicptero, como poderiam t-la levado para qualquer canto do Elite passando por

um monte de tiras americanos? Isso  uma loucura... Ei! Espere a! S se for...

        -- Isso mesmo, Miguel! -- aulou Chumbinho. Vamos l, Kara. Pense! S h

um lugar para onde os bandidos podem ter levado Magr sem cair nas mos dos tiras.

        -- Miguel! Chumbinho! -- Peggy estava perdida. -- O que vocs esto

querendo dizer?

        Chumbinho ria, aliviado com a descoberta:

        -- Estamos querendo dizer que Magr nuuuunca saiu do vestirio, Peggy! Ela

ainda est l! O vestirio feminino tambm deve ter um alapo que leva  outra

metade do forro. Os danados a puseram no forro do vestirio das meninas, bem do

lado do nosso esconderijo. E eu e voc estvamos ali do lado e nem percebemos

nada, por causa da parede grossa que separa os vestirios e at os forros!

        A soluo do caso era surpreendente e a deduo de Chumbinho tinha sido

brilhante. A ao era urgente, mas Miguel tinha antes um grave problema a
comunicar:

           -- Crnio, corra para a lanchonete e me traga o Calu para c. Imediatamente!

           De acordo com o que Miguel tinha pedido, Peggy ficou sozinha junto  mureta

iluminada do jardim, enquanto os quatro rapazes reuniam-se debaixo da sibipiruna.

           -- Uma reunio do Comando de Guerra dos Karas, Miguel? -- estranhou

Calu. -- Em plena rua?

           -- E Magr? -- protestou Crnio. -- Vamos ficar discutindo enquanto Magr

est l, no forro do vestirio feminino, aguardando nossa ao?

           -- Ser um minuto s -- Miguel falava seriamente --  importante.

           -- E o que essa americana vai pensar que estamos fazendo?

           -- Este  o assunto da reunio do Comando de Guerra, Karas... -- comeou

Miguel, respondendo  curiosidade de todos.

           -- Como?! -- Calu estranhava mais ainda. -- Peggy  o assunto? E Magr?

           -- Um momento -- continuou o lder. -- Quero me apresentar a julgamento

pelo Comando de Guerra. Eu rompi nossos segredos...

           -- Como?! -- Chumbinho arregalava-se todo.

           Miguel falava de olhos baixos, compenetrado:

           --  verdade, Karas. Meu corao fraquejou e eu revelei nossos segredos a

Peggy...

           -- Mas... -- Calu quase gaguejava -- sem consultar a gente?

           -- Sim, Kara. Sinto muito. Submeto-me agora ao julgamento do Comando de

Guerra...

           Um silncio de morte tomou conta de todos. Os segredos dos Karas tinham

sido revelados a algum de fora! O principal juramento do grupo tinha sido quebrado,
e logo por Miguel, o grande lder, o mais duro deles!

         Trmulo, Calu foi o primeiro a quebrar o silncio:

         -- Bom, Karas, s temos uma coisa a fazer...

         Miguel sorriu amarelo:

         -- Eu sei, Calu. S h mesmo uma coisa a fazer. Tenho de ser expulso do

grupo. S peo para continuar na ao at libertarmos Magr.

         Chumbinho pulou:

         -- Voc ficou maluco, Kara? O que Calu quer dizer  que a nica sada  a

Peggy entrar no grupo dos Karas!

         Desta vez, o protesto foi de Crnio. E foi um protesto mesmo:

         -- O qu?!

         Calu ergueu a mo e agarrou o ombro de Crnio:

         --  isso mesmo, Kara. Essa  a sada. Peggy mostrou-se valente como ela

s. Seria mesmo impossvel continuarmos em busca de Magr e mantermos nossos

segredos com Peggy do lado, ajudando a gente, lutando junto conosco, como um de

ns.

         -- Um de ns?! -- Crnio no aceitava a argumentao. -- A nica menina

que  um de ns  a Magr!

         -- Vamos votar!

         Calu encerrava a discusso. Nada mais podia ser debatido quando uma

votao era proposta.

         Seriam apenas trs votos, pois Miguel era o ru.

         -- Quem aceitar que Miguel seja perdoado e Peggy se torne um Kara, diga

"sim".
          Chumbinho votou na mesma hora: Sim, Kara! Sim ao quadrado!

          -- Eu tambm voto "sim" -- secundou Calu. -- S falta voc, Crnio. A

deciso tem de ser unnime. Se voc votar "no", temos de...

          Crnio ergueu os olhos, que estavam voltados para o cimento da calada.

Havia lgrimas neles:

          --  claro que eu voto "sim", Karas.

          A emoo tomou conta de todos. Nenhum deles jamais seria capaz de repelir

Miguel, mesmo depois de um erro to grave.

          -- Todo mundo erra, no ? -- continuou Crnio, contendo a emoo. --

Mesmo um Kara. Mesmo o melhor deles... Voc ainda  o chefe, Miguel. Estamos 

espera do seu comando.

          Olhos nos olhos, Miguel e Crnio tremiam. Mas o abrao tinha de ser adiado.

A ao tinha prioridade.

          -- Oba! -- comemorou Chumbinho. -- Unanimidade! Peggy  uma de ns!

Agora temos de furar o dedo dela e ela vai ter de escrever o juramento com sangue

e...

          -- So quase onze horas, Karas -- decidia Miguel olhando o relgio. -- Falta

pouco mais de sessenta minutos para a hora "H", de acordo com a mensagem dos

seqestradores que Chumbinho copiou junto com a pista de Magr. Temos de agir,

rpido!

          Tinha sido difcil convencer Chumbinho de que no havia tempo para que

Peggy assinasse o juramento com o prprio sangue. Mas o que Miguel poderia dizer?

Que, naquela ocasio em que o garoto tinha sido aceito no grupo, a histria de dedos

furados e juramentos com sangue tinha sido apenas uma brincadeira?
          Peggy parecia disposta a substituir Magr  altura. Falava com garra, como se

por toda a vida no tivesse feito outra coisa seno arrancar meninas seqestradas das

garras de bandidos violentos:

          -- Agora eu sou um de vocs, Karas! Vamos salvar Magr.  preciso que a

polcia seja informada do local onde ela est e...

          Crnio interrompeu:

          -- E o que acontecer quando a polcia chegar l e encontrar Magr? E voc,

Peggy? Na hora, vai aparecer dizendo que ficou escondida com um bando de

lunticos?

          Miguel tomou as rdeas:

          -- No h outra alternativa, Karas. Temos de trocar Magr por Peggy!

          -- Como?

          --  isso mesmo. Quando a polcia entrar l, tem de encontrar Peggy e no

Magr. Afinal de contas, quem a Polcia espera libertar? Magr ou Peggy?

          -- Isso no faz sentido! -- protestou Calu. -- Magr sacrificou-se para impedir

que Peggy casse nas mos dos bandidos, Chumbinho arriscou a pele para fugir com

Peggy e agora voc quer desfazer tudo, devolvendo a menina para eles? Voc vai

ajudar os seqestradores, ?

          -- Nada disso! Temos de troc-las, mas s pouco antes de a polcia estourar

o cativeiro, para que Peggy no corra nenhum risco!

          --  isso mesmo, Karas! -- apoiou corajosamente a nova integrante do grupo.

-- E se eu tiver de correr riscos? E da? Magr no est arriscando a vida por mim?

          Os outros entreolharam-se. Miguel e Peggy tinham razo. Mas, como realizar

aquilo?
        Chumbinho, o pequeno-grande heri da noite, parecia no se cansar. Props

ento uma nova ao, mais maluca do que a que ele havia realizado ao fugir

carregando nos ombros a filha pelada do Presidente dos Estados Unidos:

        -- Vamos pelos telhados de novo, Karas! A gente tem de dar um jeito de

enfiar Peggy por entre as telhas e tirar Magr de l da mesma forma!

        -- E voc acha que os guardas vo ficar dormindo enquanto a gente faz tudo

isso? -- gozou Calu. -- Isso  loucura, Chumbinho!

        -- Loucura? Loucura  deixar Magr l, para morrer nas mos desses

canalhas!

        Miguel decidiu:

        -- Nem sei como a gente vai fazer essa troca, mas precisamos tentar. Temos

de estar perto do local do cativeiro de Magr quando chegar a meia-noite. No mnimo,

a gente pode acalmar a Magr.

        -- Acalm-la? -- estranhou Peggy. -- Como?

        -- Na hora voc vai ver. Agora no temos tempo de explicar.

        -- O qu?! -- protestou Peggy. -- Que machismo  esse? Agora eu sou um

Kara. Exijo que me expliquem tudo direitinho!

        Apesar da excitao daquele momento, Miguel sorriu:

        -- Est bem. Calu, explique o Cdigo-Coruja para Peggy.

        O jovem ator no precisou de mais de um minuto para transformar a nova

companheira em uma perfeita coruja-espi e logo Miguel retomava o planejamento:

        -- Precisamos decidir como a polcia vai ser avisada.

        -- O melhor  falar com meu tio Sherm -- props Peggy. -- Ele  o

guarda-costas do papai. Um amigo maravilhoso, que me carrega no colo desde que
eu era um beb.

         -- E a CIA?

         -- Olhem, eu no vou com a cara daquele diretor da CIA, o tal Hooper --

informou Peggy. --  um sujeito dissimulado, que j serviu a uma poro de governos

racistas. No sei, no...

         Mais uma vez, Miguel encerrava a questo:

         -- No. Acho que nenhum policial estrangeiro vai confiar em ns. Vo pensar

que somos um bando de adolescentes que quer aparecer na televiso e inventa

histrias sem p nem cabea.  o Andrade que tem de fazer o servio!

         Crnio no concordava:

         -- No vai dar certo, Miguel. Magr deve estar sendo bem guardada. Se a

polcia invadir o forro do vestirio feminino, a primeira coisa que eles vo fazer vai ser

usar a vida dela como escudo para tentar escapar.

         --  mesmo! -- lamentou Calu. -- Bandidos desse tipo ficam sempre em

alerta quando esto na guarda de gente seqestrada, com medo de que aparea a

polcia para estourar o cativeiro. Vivem com os instintos aguados!

         -- Ento temos de entorpecer os instintos deles, para ajudar o Andrade! --

props Chumbinho. -- E se a gente desse um fogo nos danados?

         -- Maluquice, Chumbinho! -- repeliu Crnio.

         -- Boa, Chumbinho! -- cumprimentou Calu. -- Esperem a que eu vou

buscar uma coisa!

         Cado na calada, mergulhado em seus sonhos alcolicos, l estava o pobre

bbado, o amigo do Alfredo.

         Calu abaixou-se e, com cuidado, tirou-lhe a garrafa cheia de cachaa de
entre seus braos. Separou uma nota e enfiou-a no bolso do palet do homem:

        "Obrigado, amigo... ", pensava o rapaz. "Quando voc despertar, vai

encontrar esse dinheiro para comprar outra garrafa para o Alfredo. Ou um pouco de

anticido para enfrentar a ressaca de amanh... "

        Quando o ator dos Karas voltou com a garrafa de cachaa, os cinco

discutiram rapidamente o plano e Miguel concluiu:

        -- Subimos eu, Crnio, Chumbinho e Peggy. Calu, voc s vai depois.

Preciso de voc para outra coisa. Oua o que eu quero que voc faa...

        Calu ouviu o que tinha de fazer e voltou aos portes. Muito srio, Miguel ps

a mo no ombro de Chumbinho e olhou firme em seus olhos:

        -- V na frente, Kara. Daqui em diante, as decises sero suas. Voc agora

est no comando.

        Chumbinho arrepiou-se de orgulho e respondeu:

        -- Deixa comigo, Kara!

        Miguel, Crnio, Chumbinho e Peggy arrastavam-se silenciosamente pelos

telhados do Colgio Elite em direo ao vestirio. J tinham jogado no lixo as

cabeleiras, culos, bons e demais adereos dos disfarces. E desta vez ningum tinha

ficado na rua para dar cobertura na volta porque, se eles no conseguissem salvar a

vida de Magr, no haveria volta para nenhum deles.

        Separados, aproximaram-se do telhado do vestirio. Quando Miguel achou

que j estavam a uma distncia razovel, ele mesmo iniciou o combinado:

        -- Uh-uh-rhu!

        -- Rhu-uh-uh! -- continuou Crnio, a uns vinte metros.

        -- Uh-uh-rhu-uh-uh! -- rematou Chumbinho, um pouco mais perto do
cativeiro da amiga.

        Estendida de bruos sobre o telhado, a filha do presidente americano ajudou,

completando a quadrifonia:

        -- Rhu-rhu-rhu!

        Amordaada, nua, com a pele quase dormente de tanto frio, com os pulsos

amarrados atrs das costas, com o corpo miseravelmente dodo, Magr estava jogada

dentro da barraquinha, j sem alimentar qualquer esperana de salvao.

        -- What is it? -- perguntava uma das vozes de seus guardas. -- O que 

isso? Corujas?

        --  claro que so corujas, seu idiota! Nunca ouviu falar que corujas piam 

noite nos telhados?

        A poucos passos deles, Magr chorava de alegria: seus queridos Karas

tinham entendido a mensagem!
                    16.  meia-noite. Vamos comear...


        Peggy acompanhava cada movimento de Chumbinho, junto dele, como se

fosse sua sombra.

        O menino colava o ouvido sobre as telhas. L embaixo, ouviam-se vozes

masculinas abafadas, falando em ingls. Duas vozes diferentes. Eram dois os

ces-de-guarda de Magr.

        Como tinha sido planejado, a coruja-Crnio piou longamente a uns vinte

metros de distncia dali. S sendo um Kara para saber o que diziam os pios:

        -- M-a-g-r--e-s-t-a-m-o-s-s-o-b-r-e-v-o-c--D--s-i-n-a-l-d-e-v-i-d-a.

        Imediatamente, Chumbinho ouviu algo mais, junto com as vozes. Era um som

abafado, como se algum estivesse tossindo com a boca fechada.

        -- A idiota da menina est resfriada! -- riu-se um dos bandidos.

        -- Mas ela pode se engasgar, tossindo com aquela mordaa!

        -- Ora, deixa pra l! Daqui a pouco, se o papaizinho dela no fizer o que o

captain quer, minha faca vai curar o engasgo dela! Ah, ah!

        No alto, Chumbinho aliviou-se. Era mesmo Magr quem estava l. Tinham

sido trs tossidinhas curtas, seguidas de mais duas tambm curtas e encerradas por

duas mais longas: um "S-I-M" em cdigo Morse. Sim! Sua amiga estava consciente!

Fez um sinal de positivo para Peggy. O sorriso da americaninha iluminou-se.
         Os dois engatinharam para um canto do telhado, no extremo oposto de onde

tinham ouvido a tosse. Cuidadosamente, Chumbinho afastou uma telha. O forro

estava iluminado por uma lmpada vermelha, para que a luz no fosse vista de fora.

No canto oposto aos dois Karas, dois homens estavam sentados em cadeiras de

armar. Entre aquele ponto do telhado e os bandidos, uma pequena barraca de

camping estava armada.

         "Magr deve estar dentro dessa barraca... ", concluiu o garoto.

         Logo abaixo de Chumbinho e Peggy, havia mais duas cadeiras de armar. Em

uma delas, os seqestradores haviam pendurado seus coldres com pistolas

automticas.

         A garrafa de cachaa do Alfredo fora envolvida por um lao de barbante.

Miguel tinha encontrado um clipe no bolso que servira para fazer um gancho, agora

amarrado a outro barbante. Com uma cautela imensa, Chumbinho baixou a cachaa

do Alfredo pela fresta das telhas, bem devagar. A garrafa desceu suavemente e

pousou entre as duas cadeiras. O garoto recolheu o barbante com o gancho, colocou

a telha de volta e, com os ns dos dedos, deu-lhe uma pequena batida.

         -- O que foi isso? -- surpreendeu-se um dos bandidos.

         -- Um maldito rato! -- sups o outro. -- Deve haver ratos nessa porcaria de

colgio brasileiro!

         Do alto, Chumbinho ouvia um dos bandidos movimentar-se pelo forro.

         -- Ei! O que  isso? Como  que a gente no viu essa garrafa antes? Hum...

tem cheiro da tal cachaa... E a garrafa est cheia!

         A voz do outro agitava-se:

         -- Milagre! O que est esperando? Traga pra c! Vamos poder esquentar os
ossos antes do trabalho final!

         Chumbinho pegou a mo de Peggy e imobilizou-se. Tinham mais de uma

hora para esperar que a cachaa do Alfredo fizesse efeito.

         "Faltam dez para as onze...", pensava o menino. "Espero que esses bandidos

sejam rpidos na bebida..."

         A distncia, as outras duas "corujas" tambm se aquietaram. Desta vez, a

estratgia era a pacincia.

         Grudado no corpinho de Peggy, abraando seu prprio moletom, Chumbinho

desejava que o tempo parasse.

         Assim, deitados, juntinhos, Peggy nem parecia mais alta do que ele...



         O celular do detetive Andrade vibrou dentro do bolso.

         -- Al... Quem? Senhor Presidente?! A que devo a honra de...

         Do outro lado da linha, a conhecidssima voz de Rodrigues Lobo, o

presidente da Repblica, ordenava:

         -- No h tempo para gentilezas, detetive! As investigaes do nosso

Servio Secreto descobriram uma pista valiosa. Quero que voc e seus homens

invadam o colgio. Faa a confuso que for preciso na entrada, mas depois d um

jeito de agir em silncio total. V direto para o vestirio feminino e arranje uma escada

para subir pelo alapo do teto at o forro. L talvez esteja a soluo para este caso!

         -- Mas, Senhor Presidente, os homens da CIA...

         -- No quero saber de CIA, detetive! Este pas  nosso! Faa o que tem de

ser feito. No me importo se sua ao vier a criar um incidente diplomtico.  a vida

da menina Peggy que est em jogo! No discuta as minhas ordens. V!
Imediatamente!

         Calu desligou o telefone pblico da lanchonete da italiana, mais aliviado. Sua

parte tinha sido fcil. Para um ator como ele, imitar a voz do presidente era a coisa

mais simples do mundo.

         "Dez para a meia-noite. Agora  com o Andrade. Ele precisa entrar no

vestirio na hora certa, para que Peggy no corra nenhum risco nas mos dos

bandidos. Seno, de que ter adiantado tudo o que Chumbinho fez? A esta hora, a

cachaa do Alfredo j deve ter causado o efeito que a gente precisa. Minha parte est

resolvida. Para o telhado!"

         Na lanchonete, ningum prestou ateno ao rapaz que corria para os muros

do Colgio Elite balanando uma esquisita cabeleira ao vento.

         Wilbur MacDermott pediu que o deixassem a ss no cenrio do discurso,

apenas com os tcnicos da televiso. Sentou-se atrs da mesa, pronto para iniciar o

to esperado pronunciamento. Havia recusado os recursos do maquiador e agora

estava plido como se no mais houvesse sangue em suas artrias.

         Uma lgrima teimava em brotar-lhe dos olhos e o americano tentou cont-la.

         -- Pronto, senhores -- disse aos operadores das cmeras. --  meia-noite.

Vamos comear...

         As luzes acenderam-se e as cmeras foram ligadas, transmitindo para os

satlites a imagem do presidente americano. E essa imagem era a de um homem

tenso, com os pensamentos divididos:

         "Tenho de ir em frente... Sei que minhas palavras podem levar minha prpria

filha  morte... Mas eu no tenho escolha. Peggy, meu amor! Me perdoe... Eu te amo

muito, minha filha... "
            Tudo no tinha sido mais do que uma breve pausa. Seus olhos ergueram-se

para o olho da cmera e ele comeou:

            -- Senhoras e senhores, meus irmos de todo o mundo. Este  o momento

mais difcil de minha vida. Como se sabe, os seqestradores de minha filha exigem

que eu no v avante com as reformas que pretendo propor nesta noite.

Seqestraram minha filha para que eu me veja obrigado a apoiar a sinistra proposta

para a 25 Emenda  Constituio do meu pas...

            Respirou fundo e retomou:

            -- Infelizmente, esses covardes no me deixam escolha. No posso trocar a

vida da minha filha pela infelicidade do mundo. Tenho de prosseguir, custe o que

custar...

            A lgrima teimosa conseguiu escorrer por seu rosto, brilhando sob as luzes

fortes da televiso e sendo transmitida para milhes de receptores espalhados pelo

mundo.

            Por todo o globo, sobrava oxignio  vontade. A respirao da humanidade

estava suspensa,  espera da continuao do discurso.

            -- Vamos! -- ordenava o detetive Andrade, afobado, para seus homens da

polcia civil. -- Vamos arrebentar os portes, se for preciso. So ordens do presidente!

Do prprio!  carga, homens!

            Estendido de comprido sobre os telhados, Miguel acenou para Crnio e olhou

o mostrador iluminado do relgio. Faltavam cinco minutos para a meia-noite. A hora

combinada para o que Chumbinho tinha de fazer. Por trs do lder dos Karas, j sem a

cabeleira horrorosa, Calu surgia sobre os telhados, fazendo o sinal de positivo.

Andrade j tinha sido devidamente enrolado.
         Os trs Karas, agora somente espectadores, torciam em pensamento,

assistindo de longe s duas sombras preparadas para os lances mais arriscados de

suas vidas:

         "Boa sorte, Chumbinho! Boa sorte, Peggy!"

         A americana agia como tinha sido planejado por Miguel. Despiu-se

completamente e dobrou o moletom de Chumbinho. Nua como tinha nascido,

suportava o frio como uma herona.

         De longe, dos portes da rea esportiva, vinha uma gritaria confusa. Andrade

e seus policiais tentavam romper o bloqueio dos homens de preto da CIA.

         Aquele era o momento mais crtico de toda a ao.

         Chumbinho afastava a telha novamente e espiava para dentro. Nesse

instante, Peggy notou que ele gelava, mas no de frio: de puro pavor. Olhava-a com

olhos de pnico. Com a mo fechada e o polegar em direo  boca, tentava imitar

uma pessoa bebendo. Mas, sacudindo o indicador da outra mo, o menino lhe dizia

que os bandidos no tinham bebido a cachaa do Alfredo!

         Peggy entendeu tudo e sobressaltou-se. Debaixo das telhas, a garota ouvia

uma discusso:

         -- Puxa, deixa eu tomar ao menos um gole... Estou morrendo de frio!

         A outra voz sussurrava, mas o que dizia era definitivo. E apavorante para os

planos dos garotos:

         -- No! Somos profissionais. Olha o que eu vou fazer com essa maldita

bebida brasileira!

         Do telhado, Chumbinho e Peggy sentiram o cheiro de lcool atravs das

telhas. O plano da cachaa do Alfredo tinha sido derramado sobre o concreto do
forro...

           E agora? O que eles iriam fazer? Os bandidos atirariam em qualquer pessoa

que ousasse enfiar a cabea para dentro do forro! Seria um massacre! Magr seria

atingida por alguma bala e...

           Chumbinho espalmava a mo na direo de Peggy, pedindo para que ela

esperasse. Mexeu nas telhas que havia levantado, lidando com o barbante. Peggy

no conseguia ver o que o menino estava fazendo...



           Na ante-sala dos aposentos presidenciais, Rodrigues Lobo, J. Edgar Hooper,

Sherman Blake e o Doutor Pacheco ouviam, tensos, com os olhos grudados em um

monitor que transmitia a imagem do presidente americano.

           O celular de Hooper vibrou e o diretor da CIA, contrariado pela interrupo,

abriu o aparelho.

           -- Mister Hooper! -- dizia afobada a voz do agente que ficara no comando

dos homens de preto dentro do Colgio Elite. -- Um detetive brasileiro, gordo, parece

que enlouqueceu! Est forando a entrada pelos portes da rea de esportes. Diz que

so ordens pessoais do prprio presidente do Brasil. O que faremos? Eu sou obrigado

a recuar! No posso comear uma guerra contra os policiais deste pas!

           -- Que misria! No atire, no faa nada. Estou indo para a! -- encerrou

Hooper.

           O presidente estranhou a conversa e perguntou:

           -- No atirar? Senhor Hooper, o que est acontecendo?

           -- Ahn... desculpe, Mister President Lobo... Um detetive gordo... hum...

mister Android... est abrindo caminho  fora para entrar no colgio de onde miss
Peggy foi seqestrada. Ele diz que so ordens suas...

          -- Minhas ordens?! Que histria  essa?

          Pacheco acudiu:

          -- Conheo muito bem o detetive Andrade, Senhor Presidente, e sei que ele

jamais faria uma coisa dessas se no tivesse um palpite infalvel!

          -- Voc acha que ele tem uma pista? -- perguntou Rodrigues Lobo. -- Mas

por que no ligou antes para c?

          -- Vamos para o colgio, Pacheco. Imediatamente!

          O delegado da Polcia Federal no acreditava no que estava ouvindo:

          -- Oh, Senhor Presidente! No  seguro. Deixe que eu v. O senhor no

deve ir. Sua segurana...

          -- Vamos juntos, Pacheco! Quero saber por que esse detetive ousou

meter-se nisso usando ordens que eu nunca dei! E quero saber que palpite infalvel 

esse. Depressa!

          Agarrou o brao do policial de culos escuros e os dois saram com o diretor

da CIA.

          Quando Sherman Blake viu Hooper saindo apressado, imediatamente ligou

para o andar trreo, pedindo um carro com o melhor motorista da embaixada que

estivesse  disposio.

          "No estou gostando nem um pouco disso! O que Hooper vai fazer l? Tenho

de agir depressa!"

          Com Peggy a seu lado, Chumbinho havia escolhido as telhas um pouco atrs

de onde estava a pequena barraca, num ponto em que o telhado era mais baixo.

Afastou duas e olhou para dentro.
        "O ngulo mais agudo do tringulo-retngulo...", lembrou-se ele das aulas de

geometria.

        Estavam na parte de trs da barraca. Era naquele instante ou nunca mais!

        O automvel presidencial era precedido por batedores de motocicleta que

abriam caminho e furavam os sinais vermelhos, a toda velocidade.

        Rodrigues Lobo incitava o motorista:

        -- Mais depressa! Mais depressa!

        A seu lado, o Doutor Pacheco ligava o rdio e as palavras de Wilbur

MacDermott acompanhavam a louca corrida:

        -- ... A iniciativa privada e o lucro, sem dvida, so bases slidas da

democracia. Mas a justia vem antes dos interesses privados e do lucro, pois sem

justia a democracia no pode sobreviver. Por isso, temos de assumir a

responsabilidade que nos cabe!...



        Chumbinho estava dentro do forro e Peggy desceu em seguida.

        Agachado atrs da barraca, o menor dos Karas arranhou a lona com as

unhas, em cdigo:

        -- Roc-roc-roc-roooc... roc-roooc... roooc-roooc...

        Do outro lado, arranhes semelhantes lhe disseram que Magr entendera e

estava pronta:

        -- Roc... roc-roc-roc... roooc... roooc-roooc-roooc...roc-roc-roooc...

        Chumbinho sacou o canivete de Calu do bolso da cala xadrez e, com o

cuidado de um cirurgio, cortou o pano.

        Enfiou a cabea para dentro.
        Mal iluminada pelas luzes vermelhas do ambiente, l estava sua querida

Magr, nua, amordaada e com as mos amarradas atrs das costas!

        "Magr! Afinal!"

        Peggy entrava na barraca. Por um instante, os olhos dos trs se encontraram.

Exausta, machucada, Magr sorria por trs da mordaa.

        A nova integrante do grupo dos Karas retirou a fita adesiva dos lbios de

Magr e apertou-a contra sua prpria boca.

        Chumbinho desatava o n da corda que prendia sua amiga e em seguida

amarrava as mos de Peggy.

        "Pelos meus clculos, Andrade e seus homens j devem estar entrando no

vestirio. Tomara que ele tenha trazido uma escada!"

        O momento final estava prximo.

        "Depressa! Vamos embora!", sinalizou Chumbinho.

        Magr sinalizou de volta para o amigo.

        "Esperar?!", estranhou o menino. "Esperar o qu? No h tempo!"

        Sem dar ateno  pressa do amigo, Magr comeou a gatinhar pelo lado da

barraca, na direo em que estavam os bandidos...

        Dois outros carros seguiam velozmente os batedores do automvel da

Presidncia do Brasil.

        No banco traseiro, o ocupante ouvia a transmisso do discurso.

        "Ele no vai fazer o que eu mandei... No vai! Desgraado! A Amrica est

perdida!"

        Pegou o celular e comeou a teclar.

        O som do rdio invadia o carro com a voz inflamada do presidente
americano:

        -- ...  chegada a hora de as naes ricas do mundo descobrirem que seu

poder no ter o menor sentido enquanto houver outras naes  margem do

progresso, outros povos mergulhados na fome, na ignorncia e na misria!...

        Magr chegava  frente da barraca e espiava. Com um arranco, avanou mais

um pouco e logo estava de volta, sem que os bandidos tivessem percebido seus

movimentos. Em suas mos, trazia um pequeno e ultramoderno aparelho de som a

pilha, uma miniatura, dessas usadas por espies. Trazia tambm um telefone celular.

Seus olhos diziam:

        "Tudo pronto. Vamos!"

        Por um ltimo momento, os olhares dos trs adolescentes se cruzaram de

novo.

        O olhar de Peggy, agora novamente nua, mal amarrada e amordaada,

declarava:

        "Obrigada, Magr. Obrigada, Chumbinho. Adeus..."

        Os olhos de Chumbinho, ainda carregados pela tenso que o dominara

durante as ltimas horas, respondiam, comeando a toldar-se de lgrimas:

        "Cuide-se, querida. Foi um prazer salvar sua vida".

        O alapo foi movido nesse instante.

        -- Ei! -- rugiu o bandido. -- No  o captain! Fogo na menina! Idiota! Meta

bala na garota! Eu pego quem entrar!

        Os bandidos corriam para o canto onde estavam as armas e engatilhavam as

pistolas automticas...
                             17. Matem a garota!


        No cho, junto  parede, bem  frente da barraca, um alapo era aberto e

um facho de luz branca era projetado para cima, impondo-se ao ambiente

vermelho-inferno que ali havia imperado.

        Do quadrado de luz, despontava uma careca.

        Um dos bandidos enfiava o brao armado para dentro da barraca e o outro

mirava o alvo fcil que era aquela careca iluminada de branco por baixo e de vermelho

por cima. Apertaram os gatilhos ao mesmo tempo...

        Plec!

        Plec!

        -- O que  isso? -- gritou um deles.

        Subindo mais um pouco, a careca agora era o meio corpo de um homem

gordo, com um brao esticado que empunhava uma pistola que no estava
descarregada e nem faria plec.

         -- Parem a! Nem mais um passo! Nem pensem em respirar, seus canalhas,

seno eu atiro!

         Mesmo sem entender portugus, os bandidos estacaram, intimidados pelo

tom agressivo da voz.

         -- Parados! Larguem as armas!

         Como se um hipoptamo conseguisse subir em rvore, com uma agilidade e

uma fora de que nem ele mesmo sabia ser capaz, o detetive Andrade invadia o forro

da metade feminina do vestirio do Colgio Elite. E, enquanto algemava os bandidos,

nem prestou ateno ao rudo das telhas que deslizavam de volta para seus lugares.

         -- Que barraca  essa?

         Com um safano, o detetive abriu o zper da barraca.

         E perdeu completamente a respirao: l dentro, nua, amarrada e

amordaada, estava... a filha do presidente dos Estados Unidos!

         -- E ela! Ns achamos a meniiiiinaaaa!!

         Se Andrade no estivesse to alterado, to feliz com a descoberta daquela

adolescente, teria notado que a libertada estava com a expresso mais marota do

mundo.



         Wilbur MacDermott j no conseguia impedir as lgrimas. Mas continuava o

discurso, como o pai de um condenado que v o filho caminhando para o patbulo e

ainda mantm a certeza de que sua causa merece o sacrifcio.

         -- Nosso sonho de paz...

         Nesse instante, no monitor que havia atrs das cmeras, sua prpria imagem
foi substituda por uma menina que sorria confiante, encolhida dentro de um palet

largussimo e sendo carregada no colo por um homem gordo e careca, que parecia

ainda mais feliz do que ela.

        E a menina dirigia-se a ele, a seu pai, a seu presidente, quase gritando:

        -- Go ahead, daddy! V em frente, papai! Diga tudo o que tem a dizer. Eu

estou bem. Nunca estive melhor! Manda braaaasaaa!

        O presidente americano retornou o olhar cheio de alvio para as lentes das

cmeras. Reprimiu o grito que gostaria de dar e retomou o discurso, inflamadamente,

unindo sua fora  fora daquela filha maravilhosa que se preocupava com ele, depois

de ter vivido um pesadelo de verdade:

        -- Meus irmos do mundo inteiro! Nosso sonho de paz nunca ser possvel

enquanto um pas poderoso como os Estados Unidos ainda insistirem em manter um

arsenal nuclear, capaz de arrasar o planeta milhares de vezes, uma depois da outra, e

enquanto conservarmos um estoque de armas qumicas e biolgicas capazes de

impor epidemias mortais s populaes inocentes de outros pases. Por isso,

precisamos ter a coragem de, unilateralmente, destruir por completo essas armas,

antes que elas nos destruam! Proponho um desmantelamento total das armas

nucleares, qumicas e biolgicas do mundo inteiro, a comear pelas nossas, as armas

dos Estados Unidos. Nesse momento, meus assessores esto distribuindo  imprensa

um mapa do meu pas, com a localizao de todos os arsenais, laboratrios e fbricas

de artefatos nucleares, qumicos e biolgicos. Convido a Organizao das Naes

Unidas para que envie comisses de fiscalizao para testemunhar a destruio das

armas do Juzo Final. O Apocalipse, nunca!!

        Magr ainda no tivera tempo de vestir o moletom de Chumbinho, mas j
estava em ao. Nos telhados, reunidos em torno da caixa preta do alto-falante,

Miguel, Crnio, Calu e Chumbinho estavam atentos s instrues que a menina

transmitia com a linguagem de sinais dos Karas.

        Miguel entendeu o plano. Era mais uma jogada maluca como ela s, mas

poderia dar certo, se eles fossem rpidos. Calu logo entendeu o que tinha de fazer e

pegou o telefone celular, que foi ligado por Crnio ao aparelho de som.

        No demorou quase nada e o celular vibrou.

        Imitando sotaque americano, o ator dos Karas atendeu:

        -- Hello...

        Do outro lado, uma voz desconhecida ordenava:

        -- Kill the girl! Mate a garota!

        -- What?-- perguntou Calu. -- O qu?

        -- I said you have to kill Peggy MacDermott. Kill her! Disse que voc tem de

matar Peggy MacDermott! Mate-a! J!

        Com a ajuda do canivete, Crnio fazia uma ligao improvisada do aparelho

de som com o alto-falante. Sem uma chave de fenda e um aparelho de solda, aquilo

era quase impossvel. E, para o geninho dos Karas, o impossvel levava tempo...

        No Colgio Elite, uma barulheira incrvel assinalava a libertao de Peggy

MacDermott.

        O ptio  frente dos vestirios estava lotado por inmeros homens de preto e

policiais civis brasileiros, falando aos berros e ao mesmo tempo.

        Todo mundo cercava Peggy, agora coberta at os ps pelo enorme palet de

Andrade, que procurava proteg-la, afastando quem pretendesse toc-la:

        -- Pra trs! A menina precisa respirar!
        --- Parabns, detetive! Como descobriu?

        -- Voc est bem, garota? No fizeram nada com voc?

        -- Quem so esses bandidos?

        -- Recusam-se a falar! So dois falsos agentes da CIA! Esses malditos

parecem preferir a morte a abrir a boca! Pelo jeito, esto com mais medo do chefe

deles do que da cadeia!

        -- Mas que danado, esse detetive Andrade! Resolveu um caso que nem

mesmo a polcia americana conseguiu chegar perto!

        -- Um banho! A polcia brasileira deu um banho nos americanos!

        Precedidos por soldados, quatro homens surgiam para encabear a

confuso: trs policiais de alta patente, um de culos escuros e dois de terno preto,

logo atrs do presidente da Repblica, o prprio Augusto Rodrigues Lobo.

        -- Peggy! Voc est salva!

        Eufrico, o guarda-costas Sherman Blake atirava-se na direo de Peggy,

querendo abra-la. Foi detido pelo brao de Andrade:

        -- Deixe a menina em paz! Ela est muito cansada e nervosa!

        Peggy, que no demonstrava estar nem um bocadinho nervosa, tocou-lhe o

rosto, delicadamente:

        -- Pode deixar, detetive Andrade. Este  Sherman Blake.  praticamente da

nossa famlia.

        -- Hein? -- perguntou Andrade, surpreendido ao distinguir seu nome muito

bem pronunciado no meio de um monte de palavras naquela lngua que ele no

entendia. Na confuso, nem achou estranho o fato de aquela menina reconhec-lo e

ainda por cima saber o seu nome direitinho.
          Nessa altura, Blake j envolvia o palet de Andrade, com sua querida Peggy

dentro, num forte abrao, levantando-a do cho.

          -- Peggy! Peggy! Que bom!

          Hooper aproximava-se:

          -- Voc est bem, miss Peggy?

          Blake girou o corpo, tirando a garota do alcance do diretor da CIA:

          -- Tire as mos sujas de cima dela, Hooper!

          Sem palet, com a camisa suada, o detetive Andrade avanou, espalmando a

mo no peito de Hooper:

          -- No sei o que ele disse, mas  isso mesmo, seu Hooper! Quero ter uma

conversinha com o senhor!

          Pacheco adiantou-se, segurando o brao de Andrade:

          -- O que  isso? Voc ficou louco, Andrade? Isso  jeito de falar com o diretor

da CIA?

          Rodrigues Lobo entrou no meio, exigindo explicaes:

          -- O que est acontecendo aqui, detetive?

          -- O que est acontecendo  que eu quero saber por que esse Hooper ficou

o dia inteiro impedindo meus homens de entrar na escola! Eu acho que ele estava

tentando impedir que eu descobrisse a menina, presa o tempo todo no forro do

vestirio!

          Um agente j tinha se juntado ao grupo, para servir como intrprete. Quando

Hooper ouviu as acusaes do detetive de quem ele nunca conseguira pronunciar o

nome, ficou fora de si:

          -- O qu?! O senhor est me acusando de ter participado desse seqestro?
A mim, mister Android? O diretor da CIA?

         -- Por enquanto estou acusando de pouca coisa, seu Hooper -- respondeu

Andrade depois de ouvir a traduo. -- Mas, como fui eu quem descobriu o cativeiro

da filha do seu presidente, tenho o direito de continuar com essa investigao. E ela

est apontando para o seu lado!

         Sherman Blake, de cenho franzido, acompanhando o raciocnio do detetive

brasileiro, continuou:

         -- Espere a, Hooper. Pelo jeito, o helicptero s veio para c para

descarregar esses dois seqestradores, enquanto ns ficamos pensando que a

menina Peggy tinha sido levada nele para longe daqui. Mas agora eu acho que o

detetive brasileiro tem razo: por que voc no procurou por pistas dentro do colgio e

ainda impediu a policia brasileira de procurar?

         Hooper no estava admitindo as acusaes:

         -- Voc ficou louco, Blake? Voc acha que eu seria capaz de trair a confiana

do meu presidente? Voc acha que enquanto eu tivesse vida eu permitiria que algum

fizesse algum mal a miss Peggy?

         -- Confesse logo, Hooper! -- exigia Blake. -- Voc sempre esteve do lado

dos polticos mais reacionrios do nosso pas! Sempre ficou do lado da indstria de

armas, no ?

         Hooper defendia-se com raiva:

         -- Mas o que tm as minhas posies polticas com isso, Blake? Eu sabia

que no adiantava ficar fazendo investigaes aqui dentro enquanto a menina Peggy

estava sendo levada pelo ar para longe! Deixei meus homens controlando o local do

crime e fui para junto do presidente, acompanhar a perseguio do helicptero!
        Blake agarrou-o pela gola do palet:

        -- Confesse, desgraado! Foi voc quem seqestrou Peggy!

        Rodrigues Lobo interveio, com autoridade:

        -- Chega! Aqui  o meu pas e crimes cometidos aqui, aqui sero julgados.

Detetive! Prenda o senhor Hooper!

        Andrade no titubeou:

        -- Seu Hooper! O senhor est preso como suspeito do seqestro da

senhorita Peggy MacDermott. Est preso como suspeito do assassinato de dois

agentes americanos. E, se eu pudesse, eu iria prend-lo tambm por no saber

pronunciar o meu nome direito!

        -- Me larguem! Let go off me!

        Nesse momento, o rudo ensurdecedor das hlices de um helicptero

superou todas as vozes...

        -- O que  isso? O helicptero voltou?

        At as paredes vibravam com o som altssimo do motor do helicptero, mas

logo o barulho foi diminuindo e, antes que desaparecesse por completo, o grupo

reunido no ptio em frente aos vestirios ouviu, boquiaberto:

        -- Hello...

        -- Kill the girl!

        -- What?

        -- I said you have to kill Peggy MacDermott. Kill her! Now!

        O Presidente Rodrigues Lobo, o Doutor Pacheco e J. Edgar Hooper

reconheceram a voz na mesma hora. Mas foi Peggy que deu um salto para a frente,

fuzilando Sherman Blake com o olhar enfurecido:
        -- Voc?! Voc, tio Sherm?

        Sherman Blake no deu tempo para que ningum se recuperasse da

surpresa. Estendeu o brao e agarrou Peggy, fazendo cair o largussimo palet do

detetive Andrade. Em um dcimo de segundo, a faca de guerra dos fuzileiros navais

americanos estava encostada na garganta de Peggy!

        -- Quietos! Seno eu degolo a menina!

        Mais uma vez nua, num segundo, passaram pela cabea de Peggy a

coragem e o herosmo daqueles garotos ao lado de quem ela havia lutado nas ltimas

horas. Reviveu com a velocidade do estourar de uma lmpada o momento do

juramento que fizera com a mo sobre o corao de Miguel, enquanto ele tambm

punha a mo sobre o coraozinho dela. Agora, Peggy era um Kara!

        E Sherman Blake mal tinha acabado de pronunciar "menina", quando os

dentes de Peggy ferraram-se em sua mo, obrigando-o a largar a faca.

        -- Ai!

        Tlin!

        Quem estava mais perto era o presidente brasileiro, para surpresa de todos,

sua perna subiu no ar, atingindo em cheio o peito de Blake! Foi um golpe espetacular e

o enorme americano estatelou-se no cho!

        -- Canalha! Eu sou pernambucano! J ouviu falar em "capoeira",

desgraado?

        Uma montanha de homens de ternos de todas as cores, liderados por um

gordo em mangas de camisa, empilhava-se em cima do guarda-costas do presidente

dos Estados Unidos, imobilizando-o.

        Enquanto era carregado por cerca de oito policiais brasileiros, Sherman Blake
gritava:

           -- Perdoe-me, Peggy! Perdoe-me! Mas voc precisa compreender. A

Amrica est acima de tudo! Est acima da minha prpria vida! Est acima at de sua

vidinha preciosa, querida, que eu tanto amo! Compreenda que no h sacrifcios que

a grandeza da Amrica no justifique! At mesmo a sua morte, minha querida Peggy,

at mesmo a sua morte! Voc  a pessoa que eu mais amo no mundo! Eu te amo,

Peggy! Eu te amo!

           E desapareceu dos olhos emocionados de todos. Abraada ao detetive

Andrade, Peggy MacDermott inundava-se em lgrimas...

           No alto dos telhados, cinco sombras se reuniam numa s.

           No centro, estava o incrvel Chumbinho, que tinha conseguido pescar com o

gancho as armas dos bandidos, descarregando-as e entregando os seqestradores

indefesos nas mos de Andrade!

           Ningum saberia do herosmo daqueles cinco adolescentes, nem de tudo o

que tinham realizado naquela noite. Ou seis, j que Peggy agora era um deles e tinha

agido com a coragem de um verdadeiro Kara.

           Agarraram-se num s abrao.

           Numa mistura de alvio, de carinho, de amizade eterna, os cinco Karas

choravam em silncio.

           Nada, coisa alguma nesse mundo seria capaz de separ-los...

           Imundos, exaustos, famintos, os cinco Karas foram para suas casas. Magr

vestindo o moletom e os tnis de Chumbinho e Chumbinho descalo, de camiseta e

com calas de palhao enroladas nas pernas.

           Tinham combinado que a desculpa para o inexplicvel atraso seria uma festa
junina, que teria terminado tarde demais.

        Mas nada disso adiantou. Em cada uma das casas, foram recebidos com as

broncas mais monumentais de suas vidas!

        Na de Calu...

        -- E por que voc ao menos no telefonou? Para o chuveiro e pra cama, j!

        Na de Crnio...

        -- O que voc est pensando, menino? Quase me mata do corao! Voc

nunca ouviu falar da violncia desta cidade? J pensou se voc fosse envolvido em

alguma confuso?

        Na de Chumbinho...

        -- O que houve com voc, meu filho? E as suas roupas? Sujou no

pau-de-sebo? E onde voc arranjou essas calas horrorosas? Uma semana sem

videogame,  isso que voc merece!

        Na de Miguel...

        -- Onde j se viu uma coisa dessas? Voc no tem considerao pelos seus

pais? Voc pensa que j  grande, ? Pois vai ficar um ms sem mesada!

        Na de Magr...

        -- Menina! Isso so horas? Ainda vou ter um enfarte por sua causa! Cheguei

at a pensar que voc tinha sido seqestrada!

        Depois de um banho demorado, a garota estava na cozinha, tomando um

copo de leite quente oferecido pela velha Joana, a governanta que tinha sido sua bab

no passado.

        -- Voc estava na festa, , queridinha? -- perguntou Joana carinhosamente.

        --
        -- Ento voc nem sabe do que aconteceu nessa noite?

        -- No, Joana. O que foi?

        -- A filha do presidente americano foi seqestrada justo no seu colgio!

        Magr levantou para a governanta os olhos mais inocentes deste mundo:

        -- No diga?!




                         18. Amigos para sempre...


        Na manh seguinte, nas primeiras pginas dos jornais do mundo inteiro

estava a foto do detetive Andrade carregando nos braos a filha do presidente dos

Estados Unidos coberta apenas pelo seu palet. Do Alasca  Austrlia, quem ligasse a

televiso s veria locutores comentando a inteligncia e a valentia daquele humilde

policial brasileiro, que havia superado as mais fabulosas mquinas de investigao do

planeta, libertando Peggy MacDermott sem um arranho e ainda prendendo os
responsveis pelo seqestro.

        Mas o to festejado heri mal tinha conseguido dormir umas poucas horas

naquela noite. Desde a madrugada, reprteres das agncias internacionais

acotovelavam-se para conseguir espao entre os jornalistas brasileiros que j haviam

cercado a casa do detetive.

        De pijama e roupo, Andrade no se fazia de rogado e a todos atendia,

repetindo dezenas de vezes o que acontecera naquelas seis horas de tenso:

        Sherman Blake chegou na cadeia berrando como se fosse a nica pessoa

com razo neste mundo. Nosso escrivo fala ingls e deu para ficar sabendo de tudo.

O sujeito foi um glorioso fuzileiro naval, um heri mesmo. Liderava grupos de resgate

e ficou famoso no uso da faca de guerra. Acabou reformado com a patente de capito

e tornou-se guarda-costas de Wilbur MacDermott quando ele ainda era senador.

        -- Ouvimos dizer que ele era at um amigo da famlia,  verdade? --

perguntou uma reprter da revista Paris Match.

        --  verdade. Foi um amigo dedicado por muitos anos. Era extremamente

ligado a Peggy, de quem realmente gostava muito. Mas, ao mesmo tempo, foi se

tornando um fantico a favor da corrida armamentista e da fora militar dos Estados

Unidos. Secretamente, fundou a sinistra organizao dos tais Heris-em-Defesa-de-

no-sei-o-qu, usando como primeiros membros seus antigos comandados.

        Andrade interrompeu a explanao por um momento, para fazer uma pose

sorridente para os fotgrafos, e continuou:

        --   Aos   poucos,     Blake   foi    percebendo   as   posies   pacifistas   e

pr-desarmamento do senador. E, quando MacDermott elegeu-se presidente, Blake

entrou em pnico, pois descobriu que tudo aquilo em que acreditava piamente estava
ameaado...

         -- Foi a que ele idealizou o seqestro? -- perguntou um reprter da United

Press.

         -- Foi. Em seu desespero, Blake planejou essa barbaridade, o seqestro e a

possvel morte de uma menina de quem ele gostava realmente. Pobre idiota! Vai ficar

um bom tempo em uma de nossas cadeias, mas os verdadeiros responsveis, os que

lucram com a indstria de armas... -- Andrade entusiasmava-se com o prprio

discurso, como se fosse um poltico em poca de eleio -- ... esses vo continuar na

sombra, tentando encontrar outro fantico como o Blake para cometer mais alguma

loucura que tente deter os desejos de paz e fraternidade entre todos!

         -- Mas como ele conseguiu organizar o seqestro? -- perguntou um

jornalista do Der Spiegel.

         -- J chego l. Blake infiltrou dois de seus homens como agentes da CIA.

Eles faziam parte do esquema de segurana do Colgio Elite e esconderam-se no

forro do vestirio antes da chegada do presidente ao Brasil. O resto foi fcil. Enquanto

as meninas faziam sua exibio de ginstica olmpica nas quadras, esses dois

bandidos prepararam o cativeiro l no forro do vestirio feminino, armaram a

barraquinha, depois deixaram sobre a pia do vestirio uma lata de talco com gs

narcotizante e voltaram para o forro calmamente, s esperando a hora.

         -- Mas, e o helicptero? -- perguntou uma reprter da revista Time.

         -- Ah, ah! -- riu-se o gordo detetive, como se fosse um mgico tirando uma

carta da manga. -- Essa  a parte mais engraada da histria! Todo mundo ficou

perdendo tempo para localizar o helicptero. E a estava a esperteza do plano: o tal

helicptero nunca existiu!
        -- Como assim? -- insistiu a reprter. -- Mas uma poro de gente no ouviu

o helicptero na hora do seqestro de miss Peggy?

        -- Ouviram, sim! Mas ningum viu o helicptero! O que ouviram no passava

de uma gravao, reboando numa noite muito escura. Por isso o safado do Blake

insistia em descrever o helicptero, dizendo que era um aparelho pintado de preto,

com as luzes apagadas e nem sei o que mais, s para desviar as investigaes de

Hooper de dentro do colgio!

        E foi assim que Andrade conseguiu encerrar as entrevistas e retomar seu

trabalho. Depois de passar na delegacia, tinha de voltar ao Colgio Elite, para

supervisionar os ltimos detalhes da investigao.

        O detetive estacionou seu fusquinha numa esquina prxima ao Elite. Mal

equilibrado contra um poste, um homem completamente embriagado fazia um

inflamado discurso para quem passasse por ele:

        -- Todu mundu nesscha schidadi  ladro! Ladro! Levam a caisschaa

du Alfredo inquantu eu isschtava dandu uma cusschilada! Depoisch eu asschei um

dinhru nu bolschu i cum u dinhru eu bebi uma garrafa di caisschaa interinha,

purque si eu asschchei u dinhru nu bolschu, u dinhru era meu, t sschertu o t

erradu? Sssschertuuu! Maisssch agora, comu fica u Alfredo?

        Como os jornalistas tinham prejudicado seu caf da manh, a primeira

providncia do detetive foi dar um pulo na lanchonete da italiana.

        -- Miguel! Crnio! Calu! Magr! Chumbinho! Meus meninos!

        Como era hora do recreio, l estavam justamente seus cinco jovens amigos,

seus queridos "meninos", como ele sempre chamava.

        -- Que bom encontrar vocs! Puxa, mas como vocs esto abatidos! O que
houve? No dormiram bem  noite?

         Os "meninos" entreolharam-se. Foi Magr quem respondeu:

         -- Ehr... So as provas do semestre, sabe, Andrade? A gente tem de rachar

de tanto estudar...

         Sentaram-se em uma das mesinhas,  frente do farto caf da manh de

Andrade, e o detetive props-se a narrar tudo de novo para aqueles jovens de quem

ele tanto gostava, enquanto passava gelia numa fatia de po:

         -- Meninos, que timo que vocs estavam estudando como bons alunos! A

noite passada aqui, na sua escola, foi uma loucura! Uma loucura!

         -- Atchim! -- fez Chumbinho.

         Logo seguido por Calu...

         -- Atchim!

         E por Magr.

         -- Atchim!

         -- O que foi? Vocs pegaram um resfriado? O que houve, hein? Andaram

apanhando sereno? Vocs precisam se cuidar, meninos... E o que  isso no seu dedo,

Chumbinho?

         -- Hum? Esse curativo? No  nada... S um cortezinho...

         Andrade terminou a xcara de caf com leite, esfregou os cabelos do garoto

com carinho e fez um ar de mistrio:

         -- Mas, como eu estava contando, meninos, ouam s...

         E, pela ensima vez, o detetive repetiu orgulhosamente os lances do

seqestro da filha do presidente dos Estados Unidos. Os seus "meninos"

mostravam-se admirados, e no perdiam um intervalo sem que algum deles
comentasse:

         -- Puxa!

         -- Mas que barbaridade!

         -- Ainda bem que a gente estava fora dessa!

         -- E o que voc fez depois, hein?

         -- Coitada da menina!

         Como se contasse uma histria de livro de aventuras para crianas, Andrade

caprichava nos detalhes, pintando tudo com cores ainda mais berrantes do que as do

tremendo quadro real. E concluiu:

         -- Impressionante, no? E como ele, o Blake, podia entrar e sair de qualquer

lugar com suas credenciais de guarda-costas do presidente americano, tratou

pessoalmente de matar com sua faca os dois agentes que protegiam Peggy!

         -- Que horror!

         -- No ? Da, para seus dois comparsas, era s esperar o gs narcotizante

fazer efeito, descer do forro com mscaras contra gases, deixar aberta a porta do

vestirio para que todos pensassem que eles tinham fugido por ali para embarcar no

helicptero, pegar a garota desmaiada e carreg-la l para cima do forro. E o mais

incrvel eu ainda no contei...

         -- Ah, conta, vai, Andrade! -- pediu Magr, fazendo charminho.

         -- O canalha ainda se deu ao luxo de fazer uma ameaa daquelas!

Provavelmente com o sangue dos seguranas que estava na faca, escreveu um "K"

no espelho do vestirio!

         -- Puxa! -- exclamou Chumbinho. -- E o que significa isso?

         Andrade sorriu, superior:
          --  a primeira letra da palavra "kill". Vocs sabem o que quer dizer "kill", em

ingls?

          -- Kill?-- Magr fez carinha de sonsa. -- Eu, no...

          -- Quer dizer "matar"!

          -- Que horror!

          Esforando-se para no rir, Crnio comentou:

          -- Mas esse plano era arriscado demais!

          -- Isso era. Mas eles sabiam que s precisavam agentar por poucas horas,

at o discurso. Depois, matariam Peggy e desceriam tranqilamente para o ptio,

misturando-se com seus colegas da CIA!

          -- Puxa, Andrade! Mas como  que voc desmascarou o Sherman Blake?

          --  que aconteceu uma falha inexplicvel com o equipamento de som

modernssimo que os bandidos deixaram em cima do telhado, ligado  caixa do

alto-falante. Automaticamente, o aparelho gravou o telefonema de Blake mandando

matar a menina, e transmitiu tudo de volta pelo alto-falante! Da, vocs precisavam

estar l para ver a cara dos agentes da CIA ouvindo o motor do helicptero e depois a

voz do canalha do Blake!

          -- Mas que coincidncia feliz, hein? -- admirava-se Miguel.

          -- Mais do que feliz! Essa histria estava cheia de maluquices. Imaginem a

sorte que eu tive: quando eu subi para o forro do vestirio, os seqestradores estavam

com as pistolas descarregadas!

          -- Incrvel! -- admirou-se Chumbinho.

          -- No ? O Pacheco acha que isso era alguma ordem do maluco do Blake.

Vai ver ele no queria barulho de tiros. Tudo tinha de ser feito a faca, em silncio!
          Vai ver foi isso mesmo, Andrade -- concordou Chumbinho. -- S pode ser

isso...

          Andrade limpava a boca com o guardanapo:

          -- Hum... acho que no adianta pedir o sorvete da casa... Vou acabar

perdendo o apetite para o almoo. Vocs j experimentaram o sorvete especial daqui?

Creme, pistache e chocolate. Uma delcia! Querem que eu pea sorvete para vocs?

          Magr deu um pulo:

          -- No! Esse sorvete, no!

          -- Atchim! -- espirrou Miguel, com os olhos vermelhos.

          -- Mas que resfriado vocs pegaram, hein? , acho melhor mesmo vocs se

cuidarem. Sorvetes e gelados esto fora, ouviram?

          --  claro, Andrade. Sem sorvetes...

          -- E olhem: agora eu vejo que vocs esto tomando juzo, porque desta vez

no vieram meter o nariz nessa histria terrvel, como aconteceu das outras vezes que

eu no quero nem me lembrar! Desta vez, ficaram quietinhos, enquanto ns, os

profissionais, cuidamos de tudo e salvamos a vida da filha do presidente...

          -- Voc foi mesmo demais, Andrade! -- aplaudiu Miguel.

          O gordo detetive fez uma festinha no queixo de Magr e levantou-se.

          -- Bom, agora eu preciso ir. Tenho um relatrio enorme para preencher. Eu ia

at tentar um modo de falar com o Presidente Rodrigues Lobo, mas...

          -- Falar com o presidente?! -- sobressaltou-se Calu.

          -- Pra qu?

          -- O prprio presidente ligou para mim, sabia, Calu? ! O pessoal da

delegacia ficou verde de inveja. E eu queria tentar um telefonema para ele, para
agradecer a dica do Servio Secreto sobre o forro do vestirio, que ele me passou. Se

no fosse isso, eu...

         Calu estava ansioso:

         -- Telefonar para o presidente?! Ora, mas que absurdo, Andrade!

         -- Foi o que me disse o Pacheco, Calu.  que o tal Hooper da CIA ficou com

a cara no cho com esse caso. Cime, sabe? Imagine, a polcia mais poderosa do

mundo ser superada por um detetive brasileiro! Alm disso, o homem ficou uma fera,

porque eu quase cheguei a met-lo na cadeia! Pois . E o Pacheco me aconselhou a

no mexer mais nesse vespeiro porque ainda vai acabar dando rolo. Pode at causar

um mal-estar internacional, voc no acha?

         -- Acho! -- reforou Calu. -- Acho sim! Atchim!

         -- E cuidado com o sereno, hein? -- recomendou Andrade enquanto saa. --

Andem bem agasalhados!

         Enquanto o detetive se distanciava, a italiana da lanchonete, cansada pela

noite mal dormida, mas feliz pelos lucros inesperados que o caso lhe trouxera, no

entendeu por que aqueles cinco adolescentes riam e batiam-se as mos, como se

comemorassem a vitria do seu time...



         No salo principal dos aposentos de MacDermott, o Presidente americano e

sua esposa recm-chegada abraavam-se.

         -- Agora tudo passou, querida, tudo passou... Peggy est de novo conosco,

s e salva.

         -- S e salva? Est muito mais, Wilbur! -- sorriu a primeira dama americana.

-- Voc notou como ela est diferente? Em vez de abater-se com o que aconteceu,
Peggy parece estar mais segura, mais confiante... Ela parece mais forte! -- Os

sofrimentos amadurecem, querida. E isso tambm se aplica a mim...

        --  verdade, Wilbur. Devemos aprender a no confiar plenamente em

pessoas como Blake, mesmo que se mostrem amveis e solcitas...

        -- Talvez, querida, mas veja a situao de Peggy: dois homens em cujo amor

ela pensava poder confiar estavam dispostos a aceitar sua morte... Sherman Blake,

que em seu fanatismo julgava que suas idias malucas sobre a Amrica justificavam

qualquer sacrifcio, e eu prprio, que estava disposto a perder Peggy por achar que as

minhas idias tambm valiam mais do que a vida da minha prpria filha!

        -- Vamos esquecer isso, Wilbur, por favor...

        -- No, querida, vamos nos lembrar disso, para sempre. Blake tinha razo:

durante estes anos, minhas obrigaes polticas me roubaram o tempo que eu deveria

ter dedicado a Peggy. Mas, daqui para a frente, vamos mudar isso. Antes de ser o

presidente dos Estados Unidos, eu sou um pai...

        Os cuidados de proteo ao presidente americano,  primeira dama e a sua

filha tinham sido triplicados, mas havia sido aberta uma exceo, e um agente bateu

na porta. A primeira dama abriu-a e o homem falou, cerimoniosamente:

        -- Boa-tarde, misss MacDermott. J chegou o rapaz que miss Peggy

autorizou que subisse at aqui.

        -- Oh, sim, querida -- lembrou o presidente, que vinha atrs da esposa. --

Peggy fez amizade com um garoto l no colgio da amiga e convidou-o para um

lanche com ela, aqui no hotel.

        Voltou-se para um dos quartos e chamou:

        -- Peggy, seu amigo j chegou!
         A menina apareceu, normalmente vestida, sem qualquer afetao, mas com

um sorriso luminoso, de algum na expectativa de algo maravilhoso.

         -- Eu e sua me temos de ir ao jantar de despedida na embaixada, Peggy,

querida -- disse o pai, abraando-a.

         -- S peo que voc no teime em sair do hotel. Depois do que houve ontem,

eu...

         Peggy ps-se na ponta dos ps e beijou-lhe o rosto.

         -- Est bem, papai. Ns s vamos conversar. Esse  um rapaz muito

especial. Aqui no Brasil, eles iniciam as frias de inverno logo mais, no incio de julho.

Quero ver se a gente combina de ele ir a Washington para me encontrar. Adoraria

mostrar minha terra para ele...

         Nesse momento, um belo garoto era introduzido no salo. MacDermott

estendeu-lhe a mo.

         -- Muito prazer, meu jovem. Vocs tm um lindo pas. Adorei o Brasil.

         -- Thank you, Mister President -- o garoto apertava-lhe a mo e devolvia o

cumprimento, num ingls perfeito.

         -- A Amrica tambm  linda. Eu e minha famlia j estivemos em seu pas

algumas vezes...

         O casal saiu para o jantar. J no carro, a primeira dama comentava:

         -- A tem coisa, Wilbur. Esse rapaz... hum... Peggy olhava para ele de uma

maneira que ns, mulheres, sabemos o que significa. ... nossa filha est ficando uma

moa, no est?

         -- Est, querida. O tempo passa e a gente nem percebe...
        Depois que ficaram a ss, Peggy levou o jovem visitante para a mesma

varanda de onde, na noite anterior, havia apreciado o anoitecer da cidade nos braos

de Sherman Blake.

        S que, desta vez, foi em braos mais jovens que ela se aninhou...

        -- Calu...

        -- Peggy...

        Como estrelas muito baixas, as luzes da cidade salpicavam a escurido da

noite que j se fechava. Acima, o mau tempo encobria as estrelas de verdade.

        De olhos fechados, Peggy rememorava a noite anterior, quando tinha sido

abraada por aquele rapaz, em cima de um telhado, como num namoro entre gatos.

        -- Sabe, Calu? Pelo menos uma coisa aquele traidor, o tio Sherm, me

ensinou de bom...

        -- Sim... ? -- murmurava ele, aspirando seus cabelos.

        -- Ele me ensinou a dizer uma coisa em portugus...

        -- Em portugus? O que foi?

        -- Foi... o tchiii muu...

        -- Hum? O qu? Espere que eu vou ensin-la a falar portugus. Repita

comigo: Calu, eu te amo!

        -- Calu... Eeu... tchi... amou...

        -- Saiu mais ou menos. Mas voc pode melhorar.

        -- Agora diga: Calu, eu te adoro!

        -- Calu... eeu... tchi... adoourou...

        -- Voc vai indo bem. Agora diga: Calu, voc  o garoto mais lindo do mundo!

        -- Oh, honey -- ronronou a menina. -- Vamos deixar essa lio para depois...
Amor no se ensina. Amor a gente faz...

         -- Oh, Peggy...

         Os lbios dos dois se encontraram, num beijo longo, carinhoso, cheio de

estrelas...



         -- Vamos l, menino, sua garganta inflamou, eu no disse? Voc fica no

sereno, tomando gelado, e  isso que d! Agora no pode se queixar. Vai ter de tomar

essa injeo e pronto!

         Chumbinho reclamava:

         -- No quero, me! Isso  aquela injeo que di!  aquele antibitico que

deixa calombo na bunda!

         -- O que  isso, garoto? -- repreendeu o farmacutico, impaciente. -- Deixe

de ser covarde!

         O menor dos membros do grupo dos Karas, no dia seguinte a tudo aquilo que

fizera, resfriado, com febre e com a garganta inflamada, voltou a cabea para o

farmacutico, srio:

         -- Covarde? Eu?!

         E, resignadamente, abaixou as calas, dispondo-se  dolorida picada...



         No Parque do Ibirapuera, o espetculo ao ar livre estava sendo demais. O

famoso tenor Plcido Carreras encerrava sua apresentao sob os aplausos de

milhares de pessoas que se espalhavam pelo gramado.

         No fim da multido, quase conseguindo o isolamento que desejava, um

casalzinho estava abraado.
         -- Magr...

         -- Oh, Crnio...

         Os potentes alto-falantes espalhavam a bela voz do tenor, embalando o beijo

apaixonado daquele dois...

         -- Amigos para siempre, you will always be my friend...



         O Salo Oval da Casa Branca, em Washington, recebia a visita de um

homem gordo, careca, tremendo de nervosismo dentro de um terno alinhado, acabado

de sair de uma loja de roupas feitas.

         O salo estava lotado pelas mais altas autoridades dos Estados Unidos e

pelas cmeras de tev, que transmitiam a cerimnia para o mundo.

         Wilbur MacDermott prendia na lapela do palet do convidado a mais alta

condecorao do governo dos Estados Unidos. Uma medalha que representaria para

sempre a gratido de um pas  coragem e ao desprendimento de um policial que

salvara a vida da filha do presidente.

         Emocionado, o detetive Andrade no suava nem um pouco.



         Sozinho, pedalando sua bicicleta, Miguel relembrava os riscos extremos que

os Karas tinham assumido para salvar a vida de duas garotas: sua adorada Magr e a

filha do presidente dos Estados Unidos.

         Em seu corao, ao pensar na americana, vinha-lhe aquele aperto que ele s

sentia quando pensava em Magr. Por qu? O que tinha acontecido com ele? E por

que ele se sentia to s?

         "Daqui para a frente, mesmo distante, Peggy ser um de ns. Ela  um Kara.
Dos melhores. Mas..."

        Mas ele sabia que a garota tinha ficado com outro...

        Sacudiu a cabea, afastando a imagem da menina, e a gravidade dos

problemas que assombravam o mundo voltou-lhe  conscincia.

        "Armas, guerras... Violncia...  para viver nesse mundo que eu tenho de

crescer? Ah, contra tanta coisa, a favor de tanta coisa eu tenho de lutar! Um trabalho

para os Karas... Ah, a vida  um trabalho para os Karas!"

        Lentamente, Miguel movia os pedais pensando que os Karas nunca, nunca

poderiam acabar...

        Ao longo da rua quase deserta daquele comeo de frias, a figura de Miguel

distanciou-se at se perder ao longe...
                   A VIDA  UM TRABALHO PARA OS KARAS!



        Nasci em Santos, em 1942, morei na Capital de So Paulo de 1961 a 1 999 e

moro em So Roque (SP) desde ento. Estudei Cincias Sociais e fui uma poro de

coisas: de professor e ator a publicitrio, de jornalista a editor, at transformar-me,

desde 1 983, em um escritor para jovens. Sou casado com a Lia e tenho trs filhos:

Rodrigo, Marcelo e Maurcio.

        Alm de Droga de americana!, talvez voc j conhea A Droga da Obedincia,

Pntano de sangue, Anjo da morte, A droga do Amor e A droga virtual, as outras

aventuras com os Karas. Alm desses, para voc eu escrevi A marca de uma lgrima

(Prmio A. P. C. A. -- Associao Paulista de Crticos de Arte), Agora estou sozinha, O

medo e a ternura, O grande desafio, A hora da verdade, Prova de fogo, Brincadeira

mortal, Mariana, Descanse em paz, meu amor, Gente de estimao, O mistrio da

fbrica de livros, O primeiro amor de Laurinha, O fantstico mistrio de Feiurinha

(Prmio Jabuti), Minha primeira paixo, Amor impossvel, possvel amor, O poeto e o

cavaleiro, Aqueles olhos verdes, Eu quero ficar com voc, O vrus final, Como

conquistar essa garota, Um crime mais que perfeito, O par de tnis, e Malasaventuras

-- safadezas do Malasarte, alm de minhas obras para o pblico infantil.
